sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Mais uma paisagem aborrecida... no Parque Nacional de Yosemite

Como estamos na quadra natalicia... E tenho estado ocupado em trocar presentes, rever amigos e por a conversa em dia, - em que por vezes chego a manipular toda a conversa sobre as aventuras por que passamos, - falta tempo para escrever dois textos por semana. Agora já não há tanto tempo livre e sinto falta desses momentos perdidos no tempo em que coçava a cabeça e me perguntava: "Não tenho nada para fazer... Hmm, que posso fazer para ocupar o dia?"

Assim, hoje decidi deixar aqui mais um vídeo da nossa viagem e este relativo à quadra por que estamos a passar...

Quer dizer, pelo menos tem neve... Este dia passou-se depois de termos pernoitado num hotel na estância de esqui de Mammoth Lakes, na California e atravessamos o Parque Nacional de Yosemite. Não, este não é o parque do urso Yogi dos desenhos animados, esse fica a uma série de horas para Norte... O Parque Nacional de Yosemite é o parque das maiores árvores do mundo, as sequoias e claro... Quando lá estivemos não vimos nenhuma.

Isto aconteceu porque as sequoias estão todas na parte sudoeste do parque e nós atravessamos pela parte Norte e assim o máximo que vimos foi uma série de paisagens que vão ficar connosco para o resto da vida, pela beleza inacreditável que transmitem e que eu jamais esquecerei... nada de mais, portanto.

Assim deixo aqui um pequeno vídeo de uma dessas paisagens. Nestes segundos vão conseguir-me a ouvir a dizer que "cheira mal!" e realmente cheirava... Os travões faziam o seu protesto depois de estarem a ser continuamente esmagados contra o tapete conforme desciamos de uma altitude de 3000m. Felizmente, nade de mal aconteceu. 




segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O ano em que fugi do Natal... E ele me encontrou!

Como se celebra o Natal quando se está a viajar?

Esta é uma boa pergunta e este ano pela primeira vez, desde que me lembro, não sinto o espírito natalício. Não sei o que lhe aconteceu, mas simplesmente não está lá. Ao contrário daquilo que acontece todos os anos, durante esta viagem não entrei em contacto com shoppings pingados de decoração e bonecos de neve. Não houve músicas natalícias a entrar nos meus ouvidos a um passo tranquilo e alegre. Não houve a progressiva adaptação a ruas coloridas de pequenas luzes e neve artificial.

O Natal deste ano caiu do céu sem avisar e não entrou com meias medidas. No dia 21 de Novembro, estava em Las Vegas, a dormir no The Quad, um dos hóteis da Strip, e tinha passado o dia a olhar para o ecrã do IPad na esperança de ter algo de interessante para escrever. Voltei a visitar o salão de alguns casinos, caminhei pela avenida e a meio da tarde cansado e com um pouco de frio regressei ao quarto de hotel. Estava lá o Jordan a ouvir música africana e a organizar a mala.

Este dia era o aniversário do Jordan e por esse motivo e até para quebrar a rotina da viagem, em que até a diversão era controlada e com certas obrigações, decidimos voltar aos locais em que tínhamos passamos alguns dias no ano anterior.

Sim... No ano anterior, em Outubro de 2012, eu re-encontrei o Jordan em Las Vegas , para onde tínhamos ido a uma conferência do projecto para que trabalhamos, e houveram alguns locais da cidade que ficaram imortalizados na nossa memória. Assim, esse dia tornou-se um flashback do passado, em que estávamos de novo os dois em Las Vegas à procura de diversão e nada mais.

Aborrecidos e a olhar para as paredes do quarto de hotel tentávamo-nos lembrar de que sítios podiamos visitar a esta hora. Centro Comerciais? Aaah, nem por isso... Discotecas? Não estávamos com a energia necessária... O que podiamos então fazer?!

Nisto o Jordan saltou da cadeira e disse que uma ideia engraçada era voltar à casa em que ficamos no ano anterior. Esfomeados e agora com o entusiasmo a enganar o cansaço, pegamos no Jeep e conduzimos pelas movimentadas e brilhantes avenidas de Las Vegas: viramos na esquina do MGM Grand, seguimos pela Tropicana, passamos o aeroporto e viramos à direita em Paradise, daí voltamos a virar e entramos na Rodeo Drive. Ali foi conduzir em frente até ao final da rua e do lado direito da estrada lá estava... Como todas as outras, com um pequeno jardim de pedra, a garagem para o carro, uma palmeira que se debruçava sobre o horizonte... Aquela que foi a nossa casa durante uma semana!



Rodeo Drive, com o hotel Luxor no horizonte


Saímos do carro e tocamos à campainha. Apareceu uma mulher negra, com um robe amarrado à cintura e com as mamas a saltarem do sutiã. Olhei para dentro da casa e o varão de strip ainda lá estava, mas pela porta saiam batidas de música electrónica, uma outra rapariga em lingerie segurava  um taco de bilhar e espreitava para a rua e um tipo negro, com um boné de basebol veio falar connosco a perguntar o que queríamos dali.

Se havia alguma tensão na sua voz, essa desapareceu quando lhe contamos o propósito da nossa visita: éramos apenas dois tipos europeus a aproveitar a América do Norte e queriamos saber quem vivia na nosa antiga casa. Talvez fosse pelo sotaque britânico do Jordan, talvez fosse pelo carácter inesperado das situações ou pelo meu sorriso, mas a nossa fórmula resultava e deixava sempre as pessoas relaxadas com a nossa presença. Em dois meses e muitas outras ocasiões nunca nos deixou ficar mal.

Quando chegamos ao carro rimos e rimos muito, porque não era aquilo que estávamos à espera de encontrar. A Casa Amorata, - como chamamos ao local onde quem trabalha no nosso projecto se reúne -, tinha-se transformado num bordel. Tinha atingido o próximo degrau de evolução!

Estávamos no final da tarde e com a fome a apertar, tendo apenas dois bolos de arroz na barriga durante o dia, conduzimos até a uma praça comercial que ficava a um ou duas milhas de distância. Naquela praça, em que as lojas ladeavam o parque de estacionamento, só havia um sítio capaz de nos preparar uma refeição digna do aniversário do Jordan: o restaurante vietnamita que se tinha tornado o nosso local de almoço durante dias e dias seguidos, ao ponto de as empregadas já nos conhecerem e não ser preciso pedir a ementa. Este ano nenhuma se lembrava de nós...

E assim, quando entramos no restaurante... Ah? Como é que isto é possível? Qual é o sentido disto?

Luzes de Natal? Pinheiros em cima de cada mesa, guardanapos com bonecos de neve desenhados e bolas decorativas penduradas no tecto e nas colunas?!

Espera... Em que dia é que estamos?

Naquele momento nada fez sentido. Olhamos um para o outro sem reacção e tentamos descortinar o significado de tudo aquilo e a situação piorou. Piorou ao ponto de haver músicas de Mariah Carrey, Celine Dion e tantos outros que apenas saiem do seu armário de traças e teias de aranha na altura do Natal.

Ali deparamo-nos com o Natal. Estávamos "naquela" altura do ano e não havia nada a fazer.

Porque é que isto aconteceu? A razão é que como fui dizendo, quando se viaja não existem dias da semana: tem pouca importância se hoje é segunda ou quinta-feira. Quando se está na estrada a relevância de ser dia 10 de Dezembro ou 18, é apenas importante para se contar os dias até ao próximo workshop. "Já faltam 3 dias? Então temos que começar a ver os sítios onde ir, começar a enviar emails, fazer o plano de..."

E assim, duas semanas e meia depois de estarmos em Miami tínhamos entrado na quadra natalícia sem querer. Nunca foi o nosso objectivo. Por essa mesma razão, e apesar do frio que agora sinto, não existe grande espírito de Natal em mim. Pergunto-me se os dois que estão no México o sentem, com o calor tropical e com os sons da selva e se o Cory, no Canadá também se sente nesta posição distante em relação ao Pai Natal.

O que mais há a dizer para além de aproveitar o Natal?

Assim quero desejar a todos os leitores deste blog um...


Pub Crawl em Santa Mónica. À minha direita na foto: o Ryan e o Jesse!

FELIZ NATAL!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O regresso e Los Angeles no horizonte

Porto, Portugal

É verdade, passados dois meses na estrada aberta, dois meses a contar quilómetros, pessoas e a amealhar memórias... Estou de volta a Portugal.

A chegada aconteceu, segunda-feira, às 11 da manhã quando aterrei no aeroporto de Lisboa, - quatro horas antes tinha chegado ao aeroporto internacional de Ponta Delgada, mas neste caso vamos considerar que os Açores não são Portugal. A sensação de tirar um pé da escada do avião e pousar em terra portuguesa foi uma mistura de sensações complicadas de explicar. Por um lado era díficil de acreditar que a viagem tinha acabado, que deixava Los Angeles para trás e há minha frente tinha Lisboa... Nada contra Lisboa, mas não posso negar o choque provocado no corpo quando olho para as matrículas dos carros e não estou à procura de que estado é. Louisiana? West Virginia? Colorado? Arizona? Agora as matriculas estão em português e até isso é demasiado familiar. Por outro lado estava prestes a ver a minha família... E ao mesmo tempo deixava para trás algumas das melhores pessoas que conheci.

No total foram mais de vinte horas de viagem. Duas no aeroporto de LAX, cinco horas de viagem até Boston, seis horas no terminal E, 4 horas sobre o Atlântico a ver filmes do Jim Carrey, 2 horas nos Açores, 2 horas até Lisboa, outras três de espera e a viagem em Alfa Pendular até ao Porto.

Claro que o meu cérebro estava vertiginoso com o jetlag, mas havia algo mais que isso...

Eu não gostei da cidade de Los Angeles: é demasiado extensa, é preciso carro para ir a qualquer lado, é suja, decadente e não é tão quente e amena como os filmes no fazem crêr. Contudo, foi onde me diverti mais durante os 2 meses de viagem. As cidades em si não são tão importantes como os guias de viagem nos dizem. Aquilo que importa em cada destino são as pessoas que se conhecem e o tempo de qualidade que se passa.

É uma realidade estranhar pensar que há pessoas que viajam para um destino, seja durante uma semana ou um mês, e acabam por não conhecer ninguém durante esse tempo. Qual é a essência de viajar senão conhecer novas pessoas e encontrar novas experiências?

Por exemplo, Toronto e Los Angeles são o exemplo perfeito disto. Austin, no Texas, apesar de ser uma cidade incrivel conseguiu tornar-se um pouco aborrecida, porque a minha rede de contactos não era muito extensa... Assim, quão importante é a funcionalidade de uma cidade, ou até mesmo a sua beleza, quando não se conhece ninguém lá? E diga-se, as cidades norte-americas não são perfeitas para se fazer turismo, porque o passado histórico... Aaaah, não existe.

As pessoas com que passei tempo em Los Angeles são algumas das pessoas mais divertidas que conheço e algumas são amigos para a vida. Durante a semana que lá passei, as conversas que tive com o Ryan, - um grande amigo e uma das pessoas mais inteligentes que conheço -,  foram as mais profundas durante toda a viagem.

O Ryan para mim é Los Angeles, ele encarna a cidade na perfeição: é um tipo do Oklahoma, que foi para LA para ser actor. Não conseguiu, até agora... E neste momento, está em North Hollywood a montar a sua empresa de gelados, isto porque sofreu um acidente de mota quando ia a mais de 120 km/h na auto-estrada e está impedido de servir à mesa, devido ao seu pulso de titânio. Contudo, a sua maneira de pensar é algo de surreal e as conversas sucedem-se uma a seguir à outra, sem espaços de intervalo e num constante fluxo de consciência. Falar com ele é como entrar num transe de ayuasca, que só terminou quando o deixei para trás no aeroporto ao volante do Jeep Canyonero.

Já viram, ou leram, o On The Road? Pronto, o Ryan é a re-encarnação do Dean Moriarty. A energia, a conversa, a loucura, a condução rápida e a liberdade.

Se não fosse ele, LA era uma cidade aborrecida. Se não fossem as conversas, que tivemos a altas horas de madrugada a caminhar pelas ruas largas de Hollywood, eu ficava a sentir que algo tinha ficado por fazer. Ali a insanidade dos dias da estrada encontraram o fogo que a transformaram em energia, projectada em filosofia e histórias de passados distantes.

Ali a insanidade encontrou a sua tranquilidade e deixaram de haver barreiras. Ali a insanidade ganhou força e tornou-se adulta e controlada.

À La Folie!






quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O último testamento

North Hollywood, Los Angeles

De novo sozinho...

Os primeiros dias em que estou completamente sozinho. Tenho que admitir que é uma sensação estranha. Há demasiado espaço, há poucas pessoas com quem falar e de repente posso fazer aquilo que quero, sem ter que confirmar com outras pessoas.

É assim que as pessoas normais vivem?!

Sou o último guardião da RoadTrip, já todos se foram embora e eu aproveito os últimos dias de Los Angeles. O Jordan partiu na quarta-feira para Guadalajara e os outros dois partiram na segunda. Até o Doctor Cavajo se foi...

Da mesma forma como esta viagem começou, assim acaba: comigo sozinho num quarto à frente do Ipad em que escrevo isto a escrever e com uma ansiedade crescente no peito por voltar a entrar num avião que me levará ao outro lado do oceano.

Há um misto de emoções em mim: felicidade por estar aqui, ansiedade por voltar, saudades do meu cachorro e não saber o que fazer. É estranho, um tempo de espera até que o meu número seja chamado. Aproveita-se os últimos dias, mas ao mesmo tempo, nunca se está completamente presente. 

Não sinto que haja muito a dizer. Não sinto que há muito para procurar fazer. São dias de reflexão, em que tenho que me encontrar de novo. Depois de dois meses sempre rodeado com as mesmas pessoas, começas a moldar a tua personalidade há dos outros e eless há tua, quando tudo se separa é como se uma parte de ti está em falha. 

Não há nada para planear? Não há viagens para fazer? Quantos dias vamos ficar aqui? Alguém tem que falar com...

Aprender a estar sozinho de novo. É um processo curioso, que contudo não me deixa com grande inspiração para escrever. E sim, este é também o último texto que escrevo nos Estados Unidos. Quando voltarem a ouvir de mim... Vou estar em Portugal. 

Até lá... Aproveitem o fim-de-semana! 

Paz!



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Despedida no Sul da Califórnia

North Hollywood, Los Angeles

Última semana da RoadTrip, o último dia dos quatro viajantes juntos, o final inevitável de uma travessia pela América do Norte, em que se ganhou mais do que aquilo que se perdeu, em que laços foram criados para não serem mais desfeitos. 

Estes dias são umas mistura curiosa de emoções: felicidade por termos chegado a Los Angeles, a tristeza por dizer adeus ao Knut e ao Cory que partem hoje, - um para Santa Bárbara, para trabalhar num projecto irrecusável e o outro está de volta ao Canadá -, a ansiedade de não saber aquilo que vou fazer nestes últimos 6 dias, o entusiasmo pelas possibilidades que se podem abrir, a vontade de regressar a casa e começar um novo capítulo.

O que vem a seguir? O que irá acontecer nestes próximos dias, que mais aventuras tem o Sul da Califórnia para nós?

Com a barriga vazia, o frio invúlgar por toda a casa e sendo o único acordado, contemplo a sala em que estou. Esta não é uma sala qualquer, é o meu quarto, é a minha casa e no fundo não me é nada: é a casa de um amigo, que não sei se irei voltar a ver depois de regressar a Portugal e esta sala não será mais do que uma memória guardada no meu pensamento e agora gravada em palavras.

Estes nadas apresentam um poder invulgar, o poder de viver no momento, de compreender que o momento presente é mais importante do que qualquer antecipação, do que qualquer refúgio em que me possa querer encontrar. 

E assim também é Los Angeles, uma cidade em que apenas se pode viver no presente, porque é tão disforme, tão monstruosa e tão mal organizada que o pleno pensamento de querer tomar um café e ter que caminhar mais que um quilómetro causa arrepios na espinha. Se não vives no presente, então a cidade deixa de fazer sentido e não vejo o porquê de alguém querer aqui viver se não estiver no momento presente.

Sim, há a praia, há as colinas de Hollywood, mas também há um aspecto sujo, degradante, triste e doentio nas entranhas da cidade, - em que apenas certos refúgios dão uma sensação de humanidade e sanidade.

Hoje não posso escrever mais... Hoje apenas posso viver as últimas horas da RoadTrip com os dois tipos grandes e loiros, que fui compreendendo cada vez mais e cada dia melhor. Hoje é o dia do adeus. Hoje não é dia de escrever...

Paz!

~João Fernandes

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Irmandade & o dia em que chorei por 3 outros homens

Santa Bárbara, California

Estou na California há mais de uma semana e tem sido uma semana que me tem deixado pouco tempo para sentar e escrever. Não há o stress de ter que fazer muito, mas há sempre algo a fazer: visitar alguém, passear pelos parques da cidade, conhecer novas pessoas, trabalho ou apenas mais algumas horas finais no carro.

Aquilo que pensava em escrever deixa de ter validade, penso noutro texto e fico sem espaço na agenda para me lembrar do que queria escrever e este processo mental segue sem parar e hoje é o primeiro dia desde há muito tempo que tenho espaço para me concentrar naquilo que quero publicar.

A California por vezes faz-me lembrar Portugal: as cores da paisagem, o pôr-do-sol no oceano, as ondas do mar, os vendedores de fruta na estrada e as serras castanhas cobertas por pequenos arbustos. Será esta uma aclimitização para o meu regresso?

O propósito desta viagem sempre foi a procura de inspiração, a busca de beleza e todas as surpresas que viessem a partir daí seriam sempre bem-vindas. Mas claro, não podemos prever como é que as viagens vão acabar, ou como vão decorrer. 

Posso afirmar por todo o grupo, que as expectativas para estes dois meses eram de diversão, conhecer belas mulheres e relaxar. Afinal,  todos nós trabalhamos na área de dating coach e uma parte do nosso trabalho é falar com mulheres.

Contudo... Esta viagem é mais sobre inspiração, irmandade e a proximidade que se podia criar entre homens. Este é um ritual de passagem, uma viagem espiritual em busca de quem somos e da nossa relação directa com os outros. 

Aquilo que aprendi nesta viagem sobre irmandade é maior do que todas as minhas expectativas. Por vezes, é díficil lembrar-me do quão confiantes e a força de vida que cada um de nós é, - cada um há sua maneira -, e como temos que lidar uns com os outros para evitar choques frontais.

Uma irmandade é o espirito de termos as costas uns dos outros protegidas, que se um caír à ravina caímos todos. Isto é raro de encontrar, ainda mais díficil de gerir quando misturamos os interesses próprios, mas viável.

Se há algo que me sinto agradecido é por ter os amigos que tenho, - tanto os que estão comigo nesta viagem, como os que estão em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo. É algo raro poder dizer que neste momento tenho mais de 7 amigos em que confiava a minha vida. Três estão nesta viagem comigo e dois desses conheço à menos de 4 meses

Contudo, aquilo que cria profundidade numa amizade não são os anos, mas aquilo que partilhas, o quão claro te permites a ser e quando estás num ambiente "panela de pressão" como temos estado durante estes meses, não há muito que podes esconder dos outros.

Mais que amizade é um sentido de camaradagem. Amigos que podes não ver durante anos, mas quando os voltas a ver nada mudou.

Qual é a razão para estar a escrever isto agora? Bem, a viagem ainda não acabou é certo, por isso essa não é a razão... 

A razão é simples: num dos dias da nossa estadia em São Francisco decidimos ter uma conversa, que durou horas, em que iriamos por tudo em cima da mesa, sem politicamente corretos, sem restricções, aquilo que estava por dizer. O resultado foi uma das experiências mais intensas porque já passei.

É claro que não vos vou contar aquilo de que falamos, - porque aquilo que acontece numa RoadTrip também fica numa RoadTrip -, mas apenas vos digo que esta foi a primeira vez na minha vida porque chorei por um outro homem. E neste caso por três outros. 

Para quem me conhece e sabe o quão eu proclamo o quanto adoro mulheres, posso dizer hoje que a minha admiração, respeito e honra por outros homens é proporcional ao meu amor por mulheres.

Vemo-nos daqui a uns dias, com mais um texto! Se entretanto tiverem perguntas sobre este artigo ou sobre a RoadTrip não hesitem em contactar-me em: joao.fernandes36@  gmail.com



Paz.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Ponte Golden Gate

Olá pessoal!

Sim, a semana passada foi uma semana invulgar, muitas horas de viagem nas mais belas paisagens que já vi e outras tantas conversas interessantes. Neste momento estou em São Francisco e daqui a umas horas partimos para a cidade universitária de Santa Bárbara. Nos próximos dias irei deixar alguns artigos sobre a viagem desde Las Vegas até São Francisco e outro sobre a própria cidade.

Entretanto, fiquem com as imagens do local mais icónico da cidade, que stravessamos ontem ao final da tarde.

Paz!


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A essência de uma RoadTrip

Este texto foi escrito no dia Domingo, 24 de Novembro.

Las Vegas, Nevada

Hoje é domingo. Na verdade, não sei qual é a diferença entre um domingo ou uma quarta-feira e é normal perguntarem-me que dia da semana é e eu não saber o que responder. Se isso acontece em estado normal, no dia de hoje é elevado a mil. 

Com o dia de sexta e sábado juntos, o total de horas de condução foi de 34. O défice de horas de sono transformou-se numa besta de três cabeças, - sendo uma delas, por acréscimo, o gasto em gasolina. Hoje dormi 10 horas seguidas e o meu cérebro parece que abandonou o corpo e neste momento está a caminhar por Las Vegas Boulevard, numa manhã tranquila de domingo. 

Esta é a segunda vez que estou em Las Vegas e devo de dizer que não sei se adoro esta cidade ou não gosto absolutamente nada. A verdade é que L.V. foi um roteiro escolhido à última hora e não estava nos planos. O que tinha sido decidido ainda em Nova Orleães, era ir de Santa Fé para Phoenix e chegar no ínicio desta semana a Los Angeles, contudo o contacto que tinhamos em Phoenix desapareceu e vimo-nos obrigado a criar uma nova rota.

O plano agora é o seguinte: Las Vegas, Yosimite National Park, a região vinhateira de Modesto e a meio da semana chegar a São Francisco e ficar lá até ao fim-de-semana de Acção de Graças, depois resta a cidade dos anjos onde nos vamos estabelecer até ao vôo de partida.

Mas lá está, a essência desta viagem são as horas passadas na estrada, as milhas percorridas e as paisagens porque passamos. Assim, tem pouca importância se estamos em Las Vegas ou em Phoenix, - se bem que não posso negar o entusiasmo que senti quando passamos pelo barragem Hoover e as luzes da cidade se estenderam por quilómetros sem fim, num enorme clarão que faz desta a cidade mais luminosa do mundo.

Contudo, o propósito deste texto não é escrever sobre esta cidade ou mesmo sobre Santa Fé, que é inacreditavel na sua imagem perfeita daquilo que é o Novo México. A razão de estar a escrever este texto é a viagem do dia de ontem.

A auto-estrada 40 Oeste é a paralela à Route 66, a histórica estrada que transportou hippies, toda uma generação de beatnicks e um sem número de famílias durante gerações rumo à costa dourada de Santa Mónica. Hoje em dia, já ninguém conduz na estrada 66 e tudo o que resta são preços de gasolina elevados e restaurantes presos nos anos 60/70 com música de época, alcatifas velhas, televisões a reviver os períodos gloriosos da rota e o cheiro a deserto. 

Mas é todo esse cliché que fez desta viagem a mais bela desde que aqui estou. Quando se atravessa o Arizona, há quilómetros de planicie em todas as direcções, que só acabam quando a vista não alcança mais e o horizonte se funde com o céu acima de nós. E depois, depois há os enormes desfiladeiros de terra vermelha que se erguem a partir do nada, as elevações que aparecem e desaparecem, os desfiladeiros criados pelas chuvas e sem esquecer o clássico mito do oeste que são os comboios de mercadoria, que se estendem por mais de 3 quilómetros, vagão após vagão, puxados por uma locomotiva que atravessa o deserto rumo a Norte. Nestas horas sentia-me pequeno, minúsculo no meio de todas as planícies sem fim, naquelas montanhas que não terminavam, nos desfiladeiros, canyons e pequenos rios. Esta é a paisagem que imaginamos quando se pensa numa RoadTrip, a imagem que é disparada pela mente quando associamos a conduzir pela América do Norte. 

E é tal como se imagina. As rectas são infinitas e a grandeza da natureza à volta é gigantesca, sentimo-nos engolidos por todo o cenário que circunda a pequena cápsula do carro, que como uma sete vermelha rasga o vento em direcção ao destino final.

Descrever uma paisagem destas, a sensação que nos transmite, é uma tarefa díficil porque não é algo palpável, não é algo que se consiga apontar há monumentalidade do momento. Apenas consigo dizer que é a melhor demonstração da grandiosidade da natureza, do quão inatingivel consegue ser.

As horas na estrada também não trazem nada de palpável para quem está do lado de fora, 15 horas fechado num carro... Chega-se a um momento em que não se sente o tempo a passar, tudo se transforma e altera, as horas de silêncio e as longas conversas, o encontro com os pensamentos, para a seguir se perder tudo e não se ter a certeza de nada, ou daquilo que se quer.

Daqui a dois dias, é o Parque Nacional de Yosimite, se entretanto não houver mais textos é porque fui devorado por um urso numa qualquer floresta do norte da California. ;)

Paz,
João


domingo, 24 de novembro de 2013

O relato da viagem pelo Jordan Collier

Porque o Jordan hoje faz anos, tem direito a 5 minutos de emissão em exclusivo para os leitores do Via Sunset.

Este vídeo foi gravado algures no Louisiana, na viagem entre Nova Orleães e Austin.

Hoje, estou em Las Vegas, e irei deixar o relato nos próximos dias. Mantenham-se atentos!

Por agora, deixo-vos o relato do Jordan:


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Viajar com um orçamento limitado

Ainda... Austin, Texas

Éramos para sair da cidade na terça, adiamos a partida por um dia. Éramos para sair da cidade ontem, adiamos a partida por mais dois dias. No total é uma semana completa no coração do Texas. 

Também não era suposto estar a escrever este texto, pois tinha a ideia de publicar um vídeo, mas por alguma razão o meu telémovel não está a fazer o upload, deixando-me sem grande solução. Vocês merecem...

Algo que me perguntaram duas vezes na última semana é: "Como é que tens dinheiro para viajar?"

É uma pergunta curiosa e aposto que muitos de vocês se perguntam o mesmo. Afinal, como é que estou a financiar esta aventura pela América do Norte?

Eu passo a explicar...

O propósito desta viagem não é apenas viajar, visitar e ir na aventura. Todos nós trabalhamos durante várias horas todos os dias. Eu dedico o meu tempo a coaching e a escrever. O Cory a comprar e vender casas através da internet. O Jordan a vender coaching e o Knut passa dias seguidos colado no computador a montar um website. 

Os fins-de-semana são também o periodo de maior intensidade, em que trabalhamos com os estudantes que vêm fazer workshops connosco e que nos pagam para serem os melhores amantes que se permitem a ser. 

Esta é uma das fontes de rendimento. A outra é poupança básica. Antes de iniciar esta viagem, tinha algumas poupanças que fui juntando ao longo dos anos e decidi que era tempo de tirar rendimento de todo esse tempo. Contudo, apesar de não ter que suar a cada minuto por não ter dinheiro para a refeição seguinte, há uma constante urgência no ar de poupar o máximo possível. 

Há viajantes que gostam de experiênciar tudo o que o dinheiro pode comprar ao máximo, eu por outro lado gosto de estender o meu orçamento o mais possivel e isto só é possivel quando se retiram todos os luxos da vida. E isso inclui... bem, vocês sabem, já falei disto várias vezes nos últimos textos.

Vejamos, por dia gasto por média 8 a 10$. Ao final de um mês isso são 300$. Ou seja, muito menos do que aquilo que pensam ser preciso para viajar e cruzar um continente. Tudo depende do conforto que querem ter. Por exemplo, posso dizer que durante toda a viagem gastei um total de 40$ em alojamento. É uma escolha de preferir o chão de desconhecidos e de no processo transformar um casaco em colchão, e de um blazer em cobertor. Há quem não se queira sujeitar a isso, eu compreendo... Tudo é uma equação de quanto estás disposto a por em jogo e quanto queres poupar.

Sim, é verdade que podia poupar mais dinheiro em alimentação, mas no geral sou demasiado preguiçoso para comprar alimentos e cozinhar, por isso os 10$ diários são gastos em comida e café. Sim, a maioria são sandes e aí a procura torna-se divertida, porque entro num jogo de comparar preços e porções, antes de dizer se quero ou não, pergunto pelo preço. 

Podem pensar que se uma viagem é para viver assim, então onde está a diversão? A verdade é que a diversão da viagem não vem das coisas que compras ou daquilo que o dinheiro te pode oferecer. A diversão vem com as conversas aleatórias com pessoas em bares e cafés, com pessoas que conheces e deixas para trás quando partes para uma nova cidade e da aventura que crias ao longo do caminho. O dinheiro não pode comprar essa diversão e é mais díficil criar isso, do que comprar o próximo pedaço de entretenimento. Por isso, acreditem que há bastante diversão.

Há alguma parte que não gosto por ter que poupar dinheiro? Claro que há e não tem nada haver comigo. Há dias em que perfeitos desconhecidos, ou melhor, pessoas que acabas-te de conhecer há algumas horas te convidam para jantar e pagam a refeição a todos, há pessoas que abrem as portas de sua casa e não pedem nada em troca e que acabar por dar mais do que deviam. 

Por vezes sinto-me mal por não poder retribuir essa generosidade e se há um factor que me motiva a fazer dinheiro é um dia poder retribuir esta generosidade que tenho recebido ao longo da viagem. É um sentimento leve de culpa, mas está lá e não há forma de a ultrapassar. 

Assim termino os meus relatos a partir de Austin, no Texas profundo. Se não viajam porque acham que não têm dinheiro suficiente, então parem de arranjar desculpas. Se consideravam que este é um estilo de vida miserável, então desenganem-se porque as reais experiências não vêm a partir do dinheiro, mas da interacção com as outras pessoas.

Enquanto não posso ser generoso com o meu dinheiro, tudo aquilo que posso dar ao mundo é a minha presença, atenção e amor. Talvez isso seja mais importante, e mais raro, do que qualquer outra forma de generosidade.

Love,
João



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Apelo à Insanidade

Downtow de Austin, Texas

Talvez tenha começado este blog pela maneira errada... Nunca houve uma introdução ao que estamos a fazer, ou com quem estou a viajar. É provavel que seja um melhor escritor do que um bom anfitrião. Sim, é possivel. 

Para aqueles que pensam que isto é apenas uma viagem, então desenganem-se, isto é uma via rápida para a insanidade, é um reality show sem câmaras, uma experiência social e um desasjustamento permanente à realidade. Qual realidade?

Na última noite em Nova Orleães caíu-me a ficha, - como uma amiga minha diz -, e apercebi-me da loucura que esta viagem é. Apercebi-me do quão primitiva estão a ser estas semanas e a sanidade mental de todo o grupo já teve melhores dias. É verdade, podem não acreditar mas houveram experiências sociais menos chocantes que isto. 

Neste momento podem estar a pensar que me estou a queixar sem razão... Sim, também é provável. Sim, também sou um sortudo por estar onde estou, a fazer aquilo que quero e a viver o sonho. Mas em vez de escrever sobre as maravilhas desta viagem e deixar-vos com inveja, prefiro fazer o papel de vítima e deixar-vos mais felizes com a vossa vida...

Nesse última dia em Nova Orleães acordei a saber que os nossos hóspedes não nos queriam hospedar por mais uma noite, para além disso não havia água em casa. Sentimentalismos com os sofás e colchão de ar, presumo. Para piorar ligeiramente o meu humor matinal, o Cory, - o tipo que está a dormir no vídeo do carro e que tem 2.10m - adora adormecer com a ventoínha no máximo, o que me faz acordar às 8 da manhã com arrepios no pescoço.

Nesse dia apetecia-me destruír algo e em instantes de insanidade, refugiado no parque de estacionamento do café a andar de um lado para o outro, percebi que isto um caminho rápido para as profundezas da insanidade e que deixei de ser um ser humano normal. Na verdade, nenhum de nós é.

Somos 4 tipos que fazemos tudo juntos, todas as decisões são tomadas em conjunto e não falamos de mais nada para além de marketing, vendas, negócios, com um pouco de espaço para falar de sedução e mulheres. Em mais de 1 mês, falamos 5 minutos sobre futebol e desporto.

Não sabemos onde vamos dormir a seguir e muito menos se o carro irá chegar ao próximo destino. Aceitamos os convites que são postos no nosso caminho e mesmo que não seja a nossa vontade, não há muito que se possa fazer: afinal precisamos mais dos nossos anfitriões do que eles de nós.

Quanto aos meus pequenos luxos: dormir no chão tornou-se confortável e preferivel a colchões de ar, os sofás são iguais a camas, e camas são... Não tenho bem a certeza do que é uma cama. Também não me lembro de acordar um dia depois das 10 da manhã ou secar-me numa toalha que cheire a lavado. ( Nunca comprem uma toalha de microfibras e a mantenham por mais de 3 meses)

Não me recordo do último filme que vi e não foi neste lado do Atlântico, de certeza. Por outro lado não consigo contar as horas de podcasts sobre vendas que o Knut põe a dar nas viagens de carro. - O Knut é o tipo norueguês que está no banco da frente, no vídeo. - Neste momento ressaco por ver um jogo de qualquer desporto, basebol é aceitável e Formula 1, de repente, é fascinante... Não tenho telémovel comigo e na verdade não sinto a falta, fazendo-me interrogar o porquê de sermos tão fascinados com esses rectângulos luminosos. Não tenho computador e não vejo televisão. Sinto falta do primeiro, não me lembro do que é o segundo.

Essa noite foi também a primeira que não saí e fiquei por "casa", que neste caso era um hostel com os hóspedes mais calados que já vi. Tudo porque não me lembrava da última vez que estive completamente sozinho e o tudo no meu corpo se estava a revoltar contra isso.

Quanto a luxos, um banho na manhã de 10 minutos é um luxo principalmente se a água não for morna, mas quente. Mas aí corro o risco de pagar o pequeno-almoço ao resto do pessoal. Sim, porque neste reality show também há desafios: se chegares um minuto atrasado à mesa pagas o pequeno-almoço ao resto do grupo.

Todos caminhamos para o mesmo precipicio e todos temos noção disso. Não quando estamos fechados no carro durante 16 horas seguidas, mas quando interagimos com alguém do mundo exterior e as piadas trocadas entre nós, não fazem qualquer sentido para as outras pessoas. Ficam a olhar para nós, como se estivessemos a falar uma língua diferente e incompreensivel. 

Mais assustador que isso são essas pessoas do mundo exterior repararem que falamos todos da mesma forma, os sotaques de inglês começam a fundir-se num só e há expressões que apenas são proferidas por nós os quatro. 

Mas sim, não me vou queixar mais... Querem saber a melhor parte de viajar? A melhor parte são as pessoas que conhecemos por cinco segundos ou dois dias, que nos tratam como se fossem nossas amigas desde há muitos anos atrás. São os conhecidos que encontramos pela estrada, jantamos com eles e a generosidade que têm em pagar pelo nosso jantar, ou qualquer outra coisa, faz-nos ficar humildemente calados e a olhar uns para os outros. 

Pequenas interacções e encontros casuais, mudanças de plano e fazer festas a um gato chamado Taj Mahal no hostel de Nova Orleães. Nesse momento sente-se saudades de casa, do conhecido, da segurança, de conforto, de conversas normais e fazer actividades normais. Mas depois, chega-se à conclusão que não há melhor sítio para se estar, que a segurança de casa é um mito... Quando se olha para trás no calendário e um mês e uma semana são o equivalente a seis meses, sabe-se que o propósito desta insanidade é o mais correcto. 

Os momentos de contacto imediato com a humanidade, com a bondade infinita do universo faz-me olhar para trás e para todas as pessoas que deram mais do que era sua obrigação. Esses momentos são dificeis de encontrar quando não se viaja, são esses momentos que mudam a maneira como se pensa e se vê mundo e nos sentimos em contacto com a bondade e o amor que existe no mundo.



Love,
João

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A flor do Lis no Mississipi

New Orleans, Bairro Francês

Estes últimos dias têm sido cansativos, uma viagem de mais de 19 horas, a cruzar os estados da Florida, Alabama, Mississipi e Louisiana. Arranjar sítio onde dormir há última hora. Criar tempo para o trabalho que foi deixado para trás durante esses dias e ter tempo para planear a estadia na próxima cidade, o workshop que vamos dar, o espaço para o Salón, onde falamos sobre sedução, amor e romance. Todas estas questões logisticas deixam pouco tempo para me concentrar em actualizar os vários blogues que tenho. 

E essa é a principal razão porque uma cidade tão incrivel como Miami, apenas tem um texto dedicado. Com certeza que há muito mais a dizer sobre Miami do que os desfiles dos corpos, as praias e a máscara que todos usam com os seus adereços. É claro que há. Histórias das pessoas que cruzaram o meu caminho, a parte não turistica longe dos Lamborghinis e Porsches. Mas há algo na minha mente que tem que ser atirada cá para fora e que merece mais um texto...

Nova Orleães. Se há uma cidade que merece um lugar especial para fazer turismo na América do Norte é Nova Orleães. É uma cidade que me dá prazer em aqui estar. Esta parte da América tem um pouco de europeu, uma parte do velho continente estou a precisar e fico contente por sentir. 

Aqui o ciclone Katrina deixou uma cicatriz permanente: há casas abandonadas, as estradas estão rachadas e por vezes sentimos que é preciso por o carro no modo de tracção às quatro rodas devido ao mau estado do asfalto. Dá para ver que é uma das cidades mais pobres que visitei neste lado do oceano e ao mesmo tempo tem um charme que não deixei ninguém indiferente.

Estamos a conduzir na parte central da cidade e é uma cidade tipicamente americana: as casas de madeira, o pequeno jardim à frente, o gradeademento de arame e quarteirões inteiros unicamente habitados por pessoas negras. Depois há uma avenida, cruza-se essa avenida e estamos no quarteirão francês e aí respira-se um ar diferente e podia perfeitamente ser parte de uma qualquer cidade mediterranica.

Disseram-me que Montreal era a cidade europeia da América do Norte, na verdade é uma versão amadora de Nova Orleães. 

O curioso é que este bairro não tem arquitectura francesa, mas sobretudo espanhola, - visto que a cidade foi vendida à coroa espanhola durante algumas dezenas de anos, por Napoleão. As varandas são de ferro trabalhado, os candeeiros são tão velhos como as pedras da rua, os jardins aparados e as casas coloridas. Há anjos e santos a olhar o céu e se a bandeira americana está presente, é curioso encontrar tantas vezes a flor de Lis pela cidade. 

Para além disto, há casas de voodoo, há os saxofones nas ruas e os bares de madeira, tal como as tavernas escuras e de cerveja forte. 

Algo que tenho que escrever e que traz o aspecto de candomblé e voodoo para o cenário são as bonecas penduradas na porta de algumas casas e os longos cemitérios que se vêem da auto-estrada, de pedra cinzenta, agastados pelo tempo e inundações e claro: as cruzes, os campanários e naqueles de adoração as macumbas, feiticarias e desejos que se espera serem realizados com a intervenção daqueles que estão no outro mundo.

E escrevo tudo isto depois de estar 4 horas nesta cidade...

E eu? Eu estou bem, fomos buscar um amigo ao aeroporto e nos próximos dias vou substituir o chão por um sofá e os calções e mangas caviadas, por calças de ganga e casacos. Já não estou nos trópicos e os sofás sempre são mais confortáveis.



Love,
João

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

19 horas de viagem

Ontem conduzimos mais de 19 horas desde Miami até Nova Orleães, cruzando os estados da Florida, Alabama, Mississipi e Louisiana.

Aqui fica registado um dos momentos de insanidade da viagem:




Love,
João

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Simplicidade

Miami Beach, Florida

Para aqueles que se questionam de o porquê de ter escrito dois textos praticamente identicos, aqui fica a resposta:

Os dias na estrada deixam-me confuso quanto àquilo que tenho que fazer, que fiz e sobre o que devo de escrever. Por isso, quando escrevi o último texto não fazia a menor ideia que já tinha abordado o tema anterior. Coisas que acontecem...

~~~

Há algo de mágico em escrever isto a partir dos jardins de uma villa, em Miami Beach. Lembro-me, ainda antes desta viagem ter começado, que iamos cobrir a maioria das grandes cidades da América do Norte e ficava a faltar Miami... E assim o destino colocou-nos aqui, no calor tropical de Novembro, em que a regra é calções, óculos de sol e havaianas.  Sim, isto em Novembro...

Miami é uma cidade engraçada, para além das praias magnificas e feitas pelo homem, - consegue-se sentir o betão por baixo da areia-, o que mais me fascina é a identidade tão própria da cidade, que a maioria das cidades americanas não tem. Aqui as pessoas têm um sentido próprio de como se vestir, como andam e como se comportam é como se estivessem sempre observados por uma câmara que os pode transportar para o palco da fama. 

Assim, tudo é pensado: o guarda-roupa e claro: o carro que conduzes diz mais sobre ti do que qualquer palavras que possas dizer, não esquecendo os corpos tonificados que se exibem na praia. Quem não é visto, não é lembrado e toda a gente se lembra disso mesmo.

Lamborghinis, Ferraris, Corvettes, BMW's modificados, aparelhagens ambulantes, tatuagens a corbrir os corpos e cinturas bamboleantes e rabos trabalhados. É um baile de máscaras em que a máscara és tu mesmo e aquilo que queres transmitir.

Para além desta identidade tão própria, em Miami fala-se tanto inglês, como se fala espanhol. Ouve-se francês e a quantidade de pessoas a falar russo é para além daquele que se pode imaginar. Já para não falar da pequena Havana e dos bairros criolos do pequeno Haiti e Jamaicatown.

Miami é uma das minhas cidades preferidas, sem sombra de dúvida. E a toda esta paisagem construída pelo homem em interface com a natureza à volta, junta-se o facto de ter dormido numa cama de verdade, pela primeira vez em mais de um mês. Isso mesmo, dormi numa cama, com colchão, lençois e cobertores e tinha a cama só para mim. Isso foi bom! Mas claro, em todos os sonhos chega uma altura em que acordamos e voltamos à realidade e volto a aprender a viver sem luxos: voltar a dormir no chão, com um blazer para me cobrir e um monte de camisolas a fazer de almofada, mas será que me posso queixar? Esse é um pequeno preço a pagar pela liberdade de poder fazer aquilo que quero, quando quero e viver na liberdade total de não saber onde vou passar a próxima noite e os próximos dias. É o reverso da medalha e não custa tanto como pensava, uma vida sem luxos e com simplicidade máxima é uma bela lição para me aperceber do quão preciso para ser feliz.

É um reset total a tudo aquilo que pensei ser necessário para viver e ser feliz.

Este é o outro reverso da medalha:



Amor,
João

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rock N' Roll

Nashville, Tennessee

Nas terras do rock tem que se ser uma estrela de rock.

Foi na última sexta-feira à noite do MidWest e depois passamos pelo Sul Profundo da América, onde o coração deste país bate e as pessoas são o exemplo típico e tantas vezes caricaturado do que é ser americano. A parte engraçada é que não é caricaturado, é real. Sim, no Kentucky as pessoas são tal como imaginas: sem dentes, com uma forma engraçada de falar, vestidas com a pior roupa que se pode imaginar num país de primeiro mundo e o simples facto de seres europeu traz para a mesa um fascínio dificil de igualar.

E o que dizer de Nashville... Também é verdade: as pessoas são obesas, simpáticas e também olham para mim como se fosse uma espécie à parte do mundo em que vivem. O simples facto de vestir calças que não são de ganga ou de fato de treino é um sinal claro que vês o mundo de uma forma diferente. 

Ser visto como uma estrela rock é engraçado porque as pessoas começam a perguntar-te como é a tua vida no outro lado do oceano, abrem os olhos quando falas com um sotaque diferente e as pupilas dilatam quando dizes que és um dating coach em viagem pelos Estados Unidos. Quando estamos sentados num restaurante, ligamos a câmara e discutimos os temas de amor, romance e sedução que nos passam pela cabeça e nesse momento todo o restaurante mergulha num grande silêncio e as cabeças torcem-se na nossa direcção e claro, no fim toda a gente quer fazer pergunta sobre quem nós somos, o que estamos ali a fazer e sobre exactamente o que é um dating coach.

Mas o que é uma rock star sem o apelo gritante feminino? No Midwest nada escapa à regra, tu és o objecto de desejo e há uma concorrência nos olhares que se cruzam na tua direcção. É estranho e demora algum tempo até me habituar a toda uma nova dinâmica: tens uma rapariga ao teu lado a dançar, outra à tua frente e na verdade não gostas de nenhuma delas. Mas o que podes fazer?! Sorris, dás dois paços de dança e de repente estás a ser puxado pelo cachecol e amarrado aos braços de uma rapariga que não conheces e não é lá que queres estar. Nesses momentos esqueces as raparigas de quem gostas, porque as que não gostas impedem-te de fazer seja o que for.

Contudo, por vezes surge a janela de oportunidade abre-se e tens a rapariga onde todos os olhares do bar residem e vais falar com ela. As mulheres bonitas, em discotecas, são iguais em todo o mundo: tens que ser muitas vezes rejeitado para conseguires ver a verdadeira pessoa, certo?

Nem por isso... A surpresa é ainda mais quando essa mesma rapariga passado alguns minutos de conversa te pergunta pelo número de telefone e diz que queria ir falar contigo há mais de meia hora, mas estava demasiado nervosa para o fazer...

Falemos em choques culturais!

O impacto está lá, mas na verdade não é exatamente isso que somos? Estrelas de rock na estrada em digressão pelos Estados Unidos: cansados e mesmo assim actuamos; esfomeados, mas temos que dar tudo aquilo que temos durante as três horas de conversa para arranjar clientes; respondemos a perguntas e damos conselhos quando o corpo pede por descanço; não se dorme há mais de dois dias, mas não há uma noite em que a desculpa de estarmos demasiado cansados nos impeça de sair à noite...

Aqui o dia de amanhã não existe, somos confrontados com a aventura da estrada, em que só o momento interessa. Não é preciso comer, porque o entusiasmo nos alimenta. Não é preciso dormir, porque sonhamos acordados. 

Tudo é vivido intensamente, tudo se ergue e desaparece em segundos.

Somos baratas, não temos nada e sobrevivemos a tudo. A essência do ser vem das novas experiências, dos vários choques que sentimos no corpo, dos estados de euforia até aos estados de querer esmurrar alguém na cara. E contudo, são nas horas de verdadeiro silêncio, quando todo o carro adormece sobre a escuridão da noite e as longas rectas se desenrolam é que se encontra a paz de espiritio e me encontro com aquilo que mais desejo e aí um sorriso de certeza se ergue nos lábios.

Love,
João

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma estrela rock em Toronto

Baixa de Toronto, Canadá

Hoje é o dia de Outono que sempre se sonha ter: as árvores perdem as folhas, as pessoas caminham pelas ruas, o sol brilha no céu e está calor. O contraste com o frio de Montreal, escrito no último texto, é mais que bem vindo e espero que a partir de agora não tenha que voltar a vestir três peças de roupa para não ter tremores de frio pelo corpo.

Aqui não se dorme, não se descança e não há tempo para lamúrias. Estamos os quatro a viver como baratas: comemos a comida mais barata, passamos as noites no chão e temos que ter a energia para fazer aquilo que tem que ser feito: escrever, contactos para os eventos, coçar a cabeça a tentar perceber como é que vamos arranjar um sítio para ficar na próxima cidade e agora arranjar o Jeep, que se avariou mal chegamos a Toronto. E no meio disto tudo, há que sair à noite, fazer quem nos hospeda fique contente connosco, comprar comida, cozinhar e cumprir metas e objectivos pessoais. Aqui vivesse acima do limite de velocidade e há dias em que há acidentes a alta velocidade, enquanto noutros dias tudo fluiu num ritmo natural.

Sinto-me cada vez mais como um membro de uma banda rock em digressão. Não há energia ou tempo para andar a visitar a cidade e as relações com as pessoas há nossa volta são tudo menos arco-iris e flores. É, nós somos uma banda rock na estrada e há dias em que queremos tudo menos actuar, mas o que se pode fazer?

A verdade é que a reacção das pessoas quando digo aquilo que faço é como abrir uma mala cheia de notas de 100 e deixar espreitar. Há quem queira tirar fotografias, querem saber a opinião sobre este tema em particular e o como é andar a viajar e não ter mais do que uma mala de viagem e algumas raparigas fazem questão de apresentar as amigas. Não é esta a essência de ser uma estrela de rock?!

E contudo, quando se vive este estilo de vida, não se adormece a pensar na casa que sempre conhecemos como o nosso lar, ou com os amigos, raparigas ou o cão que sente mais a nossa falta, que nós a dele... Quando se está na estrada e nos deitamos somos engolidos para o grande vazio da escuridão, não há nada lá. 

Mas falemos de Toronto...

Toronto é ao mesmo tempo Portugal e a cidade mais multi-cultural em que já estive, - sim mais que Nova York! Porque é Portugal? A razão é simples: ontem caminhei durante uma hora e meia para assistir ao jogo do Sporting contra o Porto, aqui há uma só realidade, o Sporting é rei em Toronto. Éramos mais de 300 adeptos e apesar de estarmos a perder, as conversas, a cerveja portuguesa, o Sumol de laranja e a tentativa de adivinhar o sotaque da pessoa com quem falava era mais importante que o resultado do jogo em si. E aqui, deste lado, a tantos quilómetros de distância não me interessava o resultado, porque quando marcamos o golo do empate foi como se tivessem aberto a jaula ao leão que vive em mim: de braços no ar gritei até me doer a garganta, naquele momento eu era uma bancada inteira, um éxercito de cem mil homens preparados para arrasar cidades. Há poucas coisas que me fazem sentir assim e aqueles segundos de descontrolo total valeram por tudo...

E porque é Toronto uma cidade multi-cultural? Para começar 55% da população não é etnicamente canadiana: chineses, coreanos, paquistaneses, indianos, libaneses, italianos, toda a América do Sul e as Caraíbas e russos fazem parte desta cidade da mesma forma que eu faço nestes dias. É um choque para mim e um estimulo total para o cérebro quando caminho pelas ruas. Como pode ser possivel tomar o pequeno almoço num café de Tawain, almoçar uma refeição das Caraíbas, na rua ouvir "O Meu Amor de Verão!" e juntar-me com os amigos que aqui estão ao final da tarde num bar etíope?

Love,
João


sábado, 26 de outubro de 2013

O Frio Norte

Toronto, Canadá

O frio chegou, tal como Ned Stark na série "Game of Thrones" dizia: "O Inverno está a chegar!" e as baixas temperaturas, o frio cortante do norte e a chuva encontraram-nos assim que chegamos a Montreal. 

Montreal... o que se pode pensar de uma cidade com ascendência francesa no Canadá? Limpa, arquitectura perfeita e organizada... Completamente errado! Montreal é tudo aquilo que eu imaginei, mas ao contrário. Essa imagem de perfeição que eu tinha foi arruinada logo no primeiro dia em que caminhei pelas ruas vazias da cidade: não havia pessoas na rua, os subúrbios estavam a dez metros do centro da cidade e qual era a razão para tanto espaço vazio, esfaltado e coberto com ervas daninhas? Para além disso, Montreal é uma cidade cinzenta: os edificios são cinzentos, o tempo é escuro e não há uma beleza estética nas pessoas, nas ruas ou na imaginação.

Eu não gostei de Montreal, no segundo dia sabia que queria sair de lá e se Nova York foi o ponto alto de toda a viagem, a maior cidade do Quebec mostrou-se como o ponto mais baixo: precisava de tempo sozinho para mim e este é dificil de encontrar quando se está numa casa com 9 pessoas, quando se tem ao lado colegas de trabalho, com posições determinadas sobre a vida, sobre o ritmo da viagem. Há fricção no ar, há faíscas e infantilidades evitáveis e por vezes há vontade de atirar um soco no ar, só para ver se acerta em alguém...

Quando se está longe de casa, sente-se falta de tudo e de nada, queremos o conhecido e ao mesmo tempo agradecemos pelo desconforto em que se vive, - pelo simples facto de ser um sinal de evolução pessoal e de conhecer-me a novas profundidas. Mas desengana-se quem pense que viajar é fácil e se sozinho é complicado, com amigos a complexidade multiplica-se. Viajar é mais do que encostarmo-nos ao sofá e desfolhar as páginas brancas, imaculadas e com cheiro a novo de um livro... Viajar é um livro de páginas amarelas, com a textura áspera e gasta dos anos, com cheiro a bolar e as páginas dobrada. O romantismo que os livros nos trazem, falham sempre em dar ao leitor a sensação que não há nada de romântico de conduzir durante oito horas com dois tipos no banco de trás a falar espanhol, porque um deles quer aprender e tu pedes a todos os deuses, às trindades, santos e almas para se calarem, por favor... por favor!

Viajar pode assumir a forma de dias aborrecidos, sentado em cafés, com a chuva a bater nos vidros e temperaturas glaciares a enregelarem os ossos e perguntarmo-nos: "O que estou eu aqui a fazer?" Mas se não estivesse aqui onde estaria? E depois de pausarmos uns minutos percebemos que estamos aqui porque isto é tudo aquilo que sempre quisermos, que estas são as melhores memorias que o dinheiro e o tempo podem oferecer, por mais desconfortavel que se possa estar, as melhores memórias são as que são passadas longe de tudo aquilo que tem significado para nós.

E como um dia Mark Jenkins disse: "A aventura é um caminho. A aventura verdadeira - auto-motivada, auto-determinada, por vezes arriscada, irá fazer-te ter encontros em primeiro grau com o mundo. O mundo da maneira que é, não como um dia imaginas-te. O teu corpo irá colidir contra a terra e tu serás a grande testemunha. Desta maneira tu irás ser confrontado com as maiores bondades que existem na humanidade e também com a derradeira maldade - e perceberes que na verdade tu és capaz de ambos. Isto irá mudar-te. Nada voltará a ser a preto e branco."

Love,
João

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A Noite em que fomos parados pela Policia Estatal

Montreal, Canada

Estar no Café Noir, na Cidade Velha, de Montreal só posso olhar com um brilho nos olhos para os últimos dias passados em Nova York. Por muito cliché que seja esta cidade é a capital do mundo, onde se podem encontrar todas as nacionalidades e se pode ouvir um sem fim de línguas a serem faladas pelas mais diferentes etnias. 

A última noite em Nova York foi passada em Times Square, com o clarão dos ecrãs gigantes a fazer-me cerrar os olhos enquanto comia o último cachorro quente de uma banca operada por um tipo da Serra Leoa. Sozinho, com um sorriso na cara e com o coração cheio de memórias e felicidade sabia que não trocava aquele momento por nada neste mundo. Há coisas que não podemos substituir, as memórias são uma delas: não nas podem tirar e não se repetem, cada momento é absolutamente único e quem leu Kundera sabe que a maravilha da vida vem nos momentos mais repetitivos tal como nos momentos que nos fazem contemplar cada segundo e querer absorver todos os segundos.

Os encontros mais aleatórios acontecem sem estarmos à espera deles, pessoas que saiem das nossas vidas à mesma velocidade com que entraram: rápida e furiosamente. Não há tempo para complacência porque quando se vive na estrada os ponteiros do relógio não param e queremos tudo aqui e agora.

O dia de ontem, segunda-feira, foi passado em jardins solarengos da Grande Maçã para ao final da tarde ligarmos o motor do Jeep e partirmos pela estrada fora, ao estilo de Kerouac. 8 horas de viagem  para Norte, metade delas passadas em estradas locais, descidas e subidas, curvas, contra-curvas e o pé calcava o travão sem perdão. Sem piedade ou misericórdia pela estrada 9W. 

Passávamos por pequenas vilas com duzentas ou cem pessoas, com um Jeep ferrugento e com a matricula de um estado distante, a ouvir música americana: desde o hip-hop de Brooklyn até ao banjo do interior, nada de preocupante, tempos bons com boas pessoas. Isto quando o ponteiro da velocidade ia nos 70 km/h e a partir da escuridão que nos envolviam dispararam as sirenes da policia atrás de nós. Vermelho, azul, luzes brancas. Era para nós? Era para o carro da frente? Atrás do volante eu não sabia o que fazer, o Jordan e o Knut tentavam olhavam pelo vidro de trás se havia algum sinal para pararmos. Será que eles queriam passar ou queriam que parássemos o carro? Virei na primeira saída à direita e eles continuaram na nossa traseira. "Pára o carro! Pára o carro!", gritou o Jordan. Encostei na berma e parei.

Fiquei cego com as luzes atrás de nós, um outro carro cortou-nos o caminho à frente. Mais luzes, mais sirenes. Estava completamente desorientado e sem perceber o que se passava. Naquilo que me parecereu um segundo tinhamos dois polícias com lanternas apontadas para dentro do carro. Abri o vidro. 
- Porque é que não parou quando o mandei parar?
- Aaah, eu fiquei completamente desorientado. Eu não sou americano por isso não estou muito dentro das leis locais e daquilo que é suposto fazer.
- Não? E se pensassemos que eram traficantes de droga e disparassemos para os pneus, já sabia que era para parar?
- Aaah... peço desculpa, mas fiquei mesmo desorientado.
- Carta de condução e título do veículo.
Este era um tipo baixo, com longas suiças até ao pescoço e com ar de quem adora aquilo que faz. Entretanto o outro aproximou-se do vidro e não podia ser maior cliché de policia americano: cabelo rapado, sem barba e a falar alto e com o tom de voz autoritário que se vê nos filmes.
- De onde é que és, Albania?
- De onde sou? Portugal.
- Aaah, deves saber falar uma cinco línguas não?
- Quantas línguas sei falar, só 3.
- Bem, são mais duas das que eu sei. Já agora, o que estão três tipos a fazer num carro a caminho do Canadá?
- Uma road-trip até à California. 
- Aaah! Ja viste isto, estes querem ir até à California neste pedaço de merda. E vocês de onde são.
O Jordan e o Knut responderam que eram da Inglaterra e da Noruega. O policia careca não perdeu tempo:
- Vejam só, três rapazes de países diferentes a viajar pelo meu país. Num carro que nem deviam ter sido autorizados a comprar. Que caralhada! Em trinta anos de serviço é a primeira vez que isto me acontece. O que é que vou fazer com vocês? Que caralhos que me saíram!
Silêncio, enquanto o que tinha aspecto de italiano verificava os passaportes no carro de trás. 
- E tu, andas-te a atirar-te de pára-quedas com o princepizinho?
- Não, nunca fui militar.
- Que bando de maricas, nem para tropa servem...

Esperámos mais quinze minutos e este policia divertia-se a tentar assustar-nos, mas a máscara de ser o policia durão e que nos ia por atrás das grades caíu com a estranheza da situação. Como é que eles nos podiam levar a sério depois de verem três tipos, num Jeep ferrugento que querem ir para a California? 

Depois de nos devolverem os passaportes foram simpáticos ao nos ajudar a inverter o sentido e ainda nos indicaram o caminho mais rápido para sair daquele caminho de cabras no meio da montanha.

Depois disto foram mais 5 horas de viagem, pela escuridão completa e total e passamos por talvez 6 carros. Nada, escuridão total e no meio de tudo isto o céu ganha cor e as estrelas indicam o caminho para aquela que irá ser a nossa casa nos próximos sete dias.

Fomos recebidos às 3 da manhã em casa de um couchsurfer e pela primeira vez dez dias tive um colchão só para mim e cobertores para me aquecer durante a noite.

Love,
João




quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Manhattan Skyline

Manhattan, Nova York
West Village

Nova York é um mundo diferente, quem aqui vive não está em contacto com mais nada para além das agulhas dos arranha-céus ou das casas de tijolo vermelho. Para quê? Só o centro é do tamanho de uma média cidade europeia. 

Manhattan em si tem uma certa espécie de beleza funcional, em que é preciso treinar o olho para ver pedaços de beleza nas coisas mais comuns e dentro do ordinário desta galáxia. Este é o centro do centro do mundo, o ritmo de vida é frenético, os carros deslizam pelo aslfato com toda a velocidade que lhes é permitida e as carruagens de metro são como conservas de peixe. Contudo, é uma cidade surpreendentemente silênciosa, não há aquele ruído de fundo que parece engolir tudo num vortex de confusão e caos. 

Upper East Side, East Village, Midtown, Chelsea. Cidades dentro de um universo. A maior maneira de viver aqui é manter o ritmo de vida das nossas cidades europeias no meio de todo o stress que o dinheiro pressiona. 2 mil dolares por mês é o minimo necessário para alugar um buraco com 10m quadrados nesta parte da cidade, essa é a causa de toda a correria, porque aqui tempo é dinheiro e é dificil escapar a essa roda frenética de trabalhar para viver.

O que me surpreende é a quantidade mulheres absolutamente fenomenais nesta cidade, é algo ridiculo e que não deveria de existir! Agora compreendo o desespero das mulheres naquelas séries, como o Sexo e a Cidade, que não conseguem encontrar um homem com quem casar ou passar algum tempo. Há mais mulheres que homens, e estes estão mais ocupados em fazer dinheiro. 

Neste momento faz uma semana e meia desde que aterrei em Boston com o Jordan e começa-se a sentir a necessidade de espaço, mas é claro... não há espaço! Como nenhum de nós tem um emprego das nove às cinco, é sempre uma melhor opção ficar onde as portas estão abertas: seja isso uma casa com quatro quartos ou, neste caso, ter que partilhar um colchão de espuma que faz o milagre de não conseguir mover qualquer parte abaixo do pescoço por dez minutos depois de se acordar.

Como se encontra este espaço? Muitas vezes é na solidão de um café cheio de gente, música mexicana como plano de fundo e submergir na escrita, nas teclas que fazem o papel de tinta espalhada num caos ordenado numa folha de papel branco. Ou então em longos passeios durante a tarde pela Segunda Avenida até ao Central Park ou numa conversa casual com um estranho enquanto se espera para atravessar uma rua. 

Aqui as horas são dias e um dia ganha a forma de uma semana. Essa é a maravilha da vida no vento, no desconhecido e no autêntico fascinio pela estrada aberta: ganham-se dias de vida! 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Novo Mundo

Providence, Rhode Island

Chegamos há uma semana aos Estados Unidos, cansados, famintos e doentes, aterramos no aeroporto de Boston ao final da tarde. Que aventura que tem sido e quantas memórias gloriosas estão guardadas na minha memória.

Boston foi agora deixada para trás pelas milhas da estrada a bordo do nosso Jeep Cherokee, comprado num dos piores bairros das redondezas. Enferrujado, sujo e de motor quente contamos os primeiros quilómetros de estrada, nesta aventura. Primeiro sul, e depois norte para se seguir o velho Oeste americano onde vamos à procura de beleza, oportunidade e histórias para contar mais tarde às próximas gerações.

Em Boston, ficamos em casa do nosso amigo Nizar, no vigésimo segundo andar, numa penthouse com vista para toda a Back Bay, de Boston, para alguns dias depois nos mudarmos para um apartamento na Chinatown, do nosso grande amigo e professor no MIT, Joe. Foi impossivel escrever mais cedo, porque entre passar por Harvard, conhecer personagens maiores que a própria vida, conhecer mulheres elegantes de leggings e botas de cabedal e ter grandes conversas regadas a vinho e whisky velho de 15 anos, a mente esgotou-se e o tempo foi ocupado com a necessidade de planear o dia seguinte, e o seguinte e a incerteza de tudo.

Hoje saímos de Boston e estamos em Providence. Sentado num café com o Nizar, escrevo as primeiras palavras deste blog naquele que é o meu primeiro feriado nacional no Novo Mundo - Columbus Day, o dia em que Cristovão Colombo descobriu a América. 

Amanhã voltou a pegar a estrada pela manhã e esperamos chegar a Nova York, Mannathan. Ou então Brooklyn, ou Fourt Lee, ou qualquer sitio onde arranjarmos um sítio para ficar, - uma tarefa que se tem adivinhado praticamente impossivel até ao momento presente. Também amanhã, o nosso número aumenta e o terceiro elemento chega ao final da tarde ao aeroporto JFK diretamente da Noruega. 

Escrevo isto com a esperança de conseguir actualizar o blog com mais frequência e deixar-vos saber aquilo que se tem passado nesta louca aventura.

Amor,
João