segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A essência de uma RoadTrip

Este texto foi escrito no dia Domingo, 24 de Novembro.

Las Vegas, Nevada

Hoje é domingo. Na verdade, não sei qual é a diferença entre um domingo ou uma quarta-feira e é normal perguntarem-me que dia da semana é e eu não saber o que responder. Se isso acontece em estado normal, no dia de hoje é elevado a mil. 

Com o dia de sexta e sábado juntos, o total de horas de condução foi de 34. O défice de horas de sono transformou-se numa besta de três cabeças, - sendo uma delas, por acréscimo, o gasto em gasolina. Hoje dormi 10 horas seguidas e o meu cérebro parece que abandonou o corpo e neste momento está a caminhar por Las Vegas Boulevard, numa manhã tranquila de domingo. 

Esta é a segunda vez que estou em Las Vegas e devo de dizer que não sei se adoro esta cidade ou não gosto absolutamente nada. A verdade é que L.V. foi um roteiro escolhido à última hora e não estava nos planos. O que tinha sido decidido ainda em Nova Orleães, era ir de Santa Fé para Phoenix e chegar no ínicio desta semana a Los Angeles, contudo o contacto que tinhamos em Phoenix desapareceu e vimo-nos obrigado a criar uma nova rota.

O plano agora é o seguinte: Las Vegas, Yosimite National Park, a região vinhateira de Modesto e a meio da semana chegar a São Francisco e ficar lá até ao fim-de-semana de Acção de Graças, depois resta a cidade dos anjos onde nos vamos estabelecer até ao vôo de partida.

Mas lá está, a essência desta viagem são as horas passadas na estrada, as milhas percorridas e as paisagens porque passamos. Assim, tem pouca importância se estamos em Las Vegas ou em Phoenix, - se bem que não posso negar o entusiasmo que senti quando passamos pelo barragem Hoover e as luzes da cidade se estenderam por quilómetros sem fim, num enorme clarão que faz desta a cidade mais luminosa do mundo.

Contudo, o propósito deste texto não é escrever sobre esta cidade ou mesmo sobre Santa Fé, que é inacreditavel na sua imagem perfeita daquilo que é o Novo México. A razão de estar a escrever este texto é a viagem do dia de ontem.

A auto-estrada 40 Oeste é a paralela à Route 66, a histórica estrada que transportou hippies, toda uma generação de beatnicks e um sem número de famílias durante gerações rumo à costa dourada de Santa Mónica. Hoje em dia, já ninguém conduz na estrada 66 e tudo o que resta são preços de gasolina elevados e restaurantes presos nos anos 60/70 com música de época, alcatifas velhas, televisões a reviver os períodos gloriosos da rota e o cheiro a deserto. 

Mas é todo esse cliché que fez desta viagem a mais bela desde que aqui estou. Quando se atravessa o Arizona, há quilómetros de planicie em todas as direcções, que só acabam quando a vista não alcança mais e o horizonte se funde com o céu acima de nós. E depois, depois há os enormes desfiladeiros de terra vermelha que se erguem a partir do nada, as elevações que aparecem e desaparecem, os desfiladeiros criados pelas chuvas e sem esquecer o clássico mito do oeste que são os comboios de mercadoria, que se estendem por mais de 3 quilómetros, vagão após vagão, puxados por uma locomotiva que atravessa o deserto rumo a Norte. Nestas horas sentia-me pequeno, minúsculo no meio de todas as planícies sem fim, naquelas montanhas que não terminavam, nos desfiladeiros, canyons e pequenos rios. Esta é a paisagem que imaginamos quando se pensa numa RoadTrip, a imagem que é disparada pela mente quando associamos a conduzir pela América do Norte. 

E é tal como se imagina. As rectas são infinitas e a grandeza da natureza à volta é gigantesca, sentimo-nos engolidos por todo o cenário que circunda a pequena cápsula do carro, que como uma sete vermelha rasga o vento em direcção ao destino final.

Descrever uma paisagem destas, a sensação que nos transmite, é uma tarefa díficil porque não é algo palpável, não é algo que se consiga apontar há monumentalidade do momento. Apenas consigo dizer que é a melhor demonstração da grandiosidade da natureza, do quão inatingivel consegue ser.

As horas na estrada também não trazem nada de palpável para quem está do lado de fora, 15 horas fechado num carro... Chega-se a um momento em que não se sente o tempo a passar, tudo se transforma e altera, as horas de silêncio e as longas conversas, o encontro com os pensamentos, para a seguir se perder tudo e não se ter a certeza de nada, ou daquilo que se quer.

Daqui a dois dias, é o Parque Nacional de Yosimite, se entretanto não houver mais textos é porque fui devorado por um urso numa qualquer floresta do norte da California. ;)

Paz,
João


domingo, 24 de novembro de 2013

O relato da viagem pelo Jordan Collier

Porque o Jordan hoje faz anos, tem direito a 5 minutos de emissão em exclusivo para os leitores do Via Sunset.

Este vídeo foi gravado algures no Louisiana, na viagem entre Nova Orleães e Austin.

Hoje, estou em Las Vegas, e irei deixar o relato nos próximos dias. Mantenham-se atentos!

Por agora, deixo-vos o relato do Jordan:


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Viajar com um orçamento limitado

Ainda... Austin, Texas

Éramos para sair da cidade na terça, adiamos a partida por um dia. Éramos para sair da cidade ontem, adiamos a partida por mais dois dias. No total é uma semana completa no coração do Texas. 

Também não era suposto estar a escrever este texto, pois tinha a ideia de publicar um vídeo, mas por alguma razão o meu telémovel não está a fazer o upload, deixando-me sem grande solução. Vocês merecem...

Algo que me perguntaram duas vezes na última semana é: "Como é que tens dinheiro para viajar?"

É uma pergunta curiosa e aposto que muitos de vocês se perguntam o mesmo. Afinal, como é que estou a financiar esta aventura pela América do Norte?

Eu passo a explicar...

O propósito desta viagem não é apenas viajar, visitar e ir na aventura. Todos nós trabalhamos durante várias horas todos os dias. Eu dedico o meu tempo a coaching e a escrever. O Cory a comprar e vender casas através da internet. O Jordan a vender coaching e o Knut passa dias seguidos colado no computador a montar um website. 

Os fins-de-semana são também o periodo de maior intensidade, em que trabalhamos com os estudantes que vêm fazer workshops connosco e que nos pagam para serem os melhores amantes que se permitem a ser. 

Esta é uma das fontes de rendimento. A outra é poupança básica. Antes de iniciar esta viagem, tinha algumas poupanças que fui juntando ao longo dos anos e decidi que era tempo de tirar rendimento de todo esse tempo. Contudo, apesar de não ter que suar a cada minuto por não ter dinheiro para a refeição seguinte, há uma constante urgência no ar de poupar o máximo possível. 

Há viajantes que gostam de experiênciar tudo o que o dinheiro pode comprar ao máximo, eu por outro lado gosto de estender o meu orçamento o mais possivel e isto só é possivel quando se retiram todos os luxos da vida. E isso inclui... bem, vocês sabem, já falei disto várias vezes nos últimos textos.

Vejamos, por dia gasto por média 8 a 10$. Ao final de um mês isso são 300$. Ou seja, muito menos do que aquilo que pensam ser preciso para viajar e cruzar um continente. Tudo depende do conforto que querem ter. Por exemplo, posso dizer que durante toda a viagem gastei um total de 40$ em alojamento. É uma escolha de preferir o chão de desconhecidos e de no processo transformar um casaco em colchão, e de um blazer em cobertor. Há quem não se queira sujeitar a isso, eu compreendo... Tudo é uma equação de quanto estás disposto a por em jogo e quanto queres poupar.

Sim, é verdade que podia poupar mais dinheiro em alimentação, mas no geral sou demasiado preguiçoso para comprar alimentos e cozinhar, por isso os 10$ diários são gastos em comida e café. Sim, a maioria são sandes e aí a procura torna-se divertida, porque entro num jogo de comparar preços e porções, antes de dizer se quero ou não, pergunto pelo preço. 

Podem pensar que se uma viagem é para viver assim, então onde está a diversão? A verdade é que a diversão da viagem não vem das coisas que compras ou daquilo que o dinheiro te pode oferecer. A diversão vem com as conversas aleatórias com pessoas em bares e cafés, com pessoas que conheces e deixas para trás quando partes para uma nova cidade e da aventura que crias ao longo do caminho. O dinheiro não pode comprar essa diversão e é mais díficil criar isso, do que comprar o próximo pedaço de entretenimento. Por isso, acreditem que há bastante diversão.

Há alguma parte que não gosto por ter que poupar dinheiro? Claro que há e não tem nada haver comigo. Há dias em que perfeitos desconhecidos, ou melhor, pessoas que acabas-te de conhecer há algumas horas te convidam para jantar e pagam a refeição a todos, há pessoas que abrem as portas de sua casa e não pedem nada em troca e que acabar por dar mais do que deviam. 

Por vezes sinto-me mal por não poder retribuir essa generosidade e se há um factor que me motiva a fazer dinheiro é um dia poder retribuir esta generosidade que tenho recebido ao longo da viagem. É um sentimento leve de culpa, mas está lá e não há forma de a ultrapassar. 

Assim termino os meus relatos a partir de Austin, no Texas profundo. Se não viajam porque acham que não têm dinheiro suficiente, então parem de arranjar desculpas. Se consideravam que este é um estilo de vida miserável, então desenganem-se porque as reais experiências não vêm a partir do dinheiro, mas da interacção com as outras pessoas.

Enquanto não posso ser generoso com o meu dinheiro, tudo aquilo que posso dar ao mundo é a minha presença, atenção e amor. Talvez isso seja mais importante, e mais raro, do que qualquer outra forma de generosidade.

Love,
João



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Apelo à Insanidade

Downtow de Austin, Texas

Talvez tenha começado este blog pela maneira errada... Nunca houve uma introdução ao que estamos a fazer, ou com quem estou a viajar. É provavel que seja um melhor escritor do que um bom anfitrião. Sim, é possivel. 

Para aqueles que pensam que isto é apenas uma viagem, então desenganem-se, isto é uma via rápida para a insanidade, é um reality show sem câmaras, uma experiência social e um desasjustamento permanente à realidade. Qual realidade?

Na última noite em Nova Orleães caíu-me a ficha, - como uma amiga minha diz -, e apercebi-me da loucura que esta viagem é. Apercebi-me do quão primitiva estão a ser estas semanas e a sanidade mental de todo o grupo já teve melhores dias. É verdade, podem não acreditar mas houveram experiências sociais menos chocantes que isto. 

Neste momento podem estar a pensar que me estou a queixar sem razão... Sim, também é provável. Sim, também sou um sortudo por estar onde estou, a fazer aquilo que quero e a viver o sonho. Mas em vez de escrever sobre as maravilhas desta viagem e deixar-vos com inveja, prefiro fazer o papel de vítima e deixar-vos mais felizes com a vossa vida...

Nesse última dia em Nova Orleães acordei a saber que os nossos hóspedes não nos queriam hospedar por mais uma noite, para além disso não havia água em casa. Sentimentalismos com os sofás e colchão de ar, presumo. Para piorar ligeiramente o meu humor matinal, o Cory, - o tipo que está a dormir no vídeo do carro e que tem 2.10m - adora adormecer com a ventoínha no máximo, o que me faz acordar às 8 da manhã com arrepios no pescoço.

Nesse dia apetecia-me destruír algo e em instantes de insanidade, refugiado no parque de estacionamento do café a andar de um lado para o outro, percebi que isto um caminho rápido para as profundezas da insanidade e que deixei de ser um ser humano normal. Na verdade, nenhum de nós é.

Somos 4 tipos que fazemos tudo juntos, todas as decisões são tomadas em conjunto e não falamos de mais nada para além de marketing, vendas, negócios, com um pouco de espaço para falar de sedução e mulheres. Em mais de 1 mês, falamos 5 minutos sobre futebol e desporto.

Não sabemos onde vamos dormir a seguir e muito menos se o carro irá chegar ao próximo destino. Aceitamos os convites que são postos no nosso caminho e mesmo que não seja a nossa vontade, não há muito que se possa fazer: afinal precisamos mais dos nossos anfitriões do que eles de nós.

Quanto aos meus pequenos luxos: dormir no chão tornou-se confortável e preferivel a colchões de ar, os sofás são iguais a camas, e camas são... Não tenho bem a certeza do que é uma cama. Também não me lembro de acordar um dia depois das 10 da manhã ou secar-me numa toalha que cheire a lavado. ( Nunca comprem uma toalha de microfibras e a mantenham por mais de 3 meses)

Não me recordo do último filme que vi e não foi neste lado do Atlântico, de certeza. Por outro lado não consigo contar as horas de podcasts sobre vendas que o Knut põe a dar nas viagens de carro. - O Knut é o tipo norueguês que está no banco da frente, no vídeo. - Neste momento ressaco por ver um jogo de qualquer desporto, basebol é aceitável e Formula 1, de repente, é fascinante... Não tenho telémovel comigo e na verdade não sinto a falta, fazendo-me interrogar o porquê de sermos tão fascinados com esses rectângulos luminosos. Não tenho computador e não vejo televisão. Sinto falta do primeiro, não me lembro do que é o segundo.

Essa noite foi também a primeira que não saí e fiquei por "casa", que neste caso era um hostel com os hóspedes mais calados que já vi. Tudo porque não me lembrava da última vez que estive completamente sozinho e o tudo no meu corpo se estava a revoltar contra isso.

Quanto a luxos, um banho na manhã de 10 minutos é um luxo principalmente se a água não for morna, mas quente. Mas aí corro o risco de pagar o pequeno-almoço ao resto do pessoal. Sim, porque neste reality show também há desafios: se chegares um minuto atrasado à mesa pagas o pequeno-almoço ao resto do grupo.

Todos caminhamos para o mesmo precipicio e todos temos noção disso. Não quando estamos fechados no carro durante 16 horas seguidas, mas quando interagimos com alguém do mundo exterior e as piadas trocadas entre nós, não fazem qualquer sentido para as outras pessoas. Ficam a olhar para nós, como se estivessemos a falar uma língua diferente e incompreensivel. 

Mais assustador que isso são essas pessoas do mundo exterior repararem que falamos todos da mesma forma, os sotaques de inglês começam a fundir-se num só e há expressões que apenas são proferidas por nós os quatro. 

Mas sim, não me vou queixar mais... Querem saber a melhor parte de viajar? A melhor parte são as pessoas que conhecemos por cinco segundos ou dois dias, que nos tratam como se fossem nossas amigas desde há muitos anos atrás. São os conhecidos que encontramos pela estrada, jantamos com eles e a generosidade que têm em pagar pelo nosso jantar, ou qualquer outra coisa, faz-nos ficar humildemente calados e a olhar uns para os outros. 

Pequenas interacções e encontros casuais, mudanças de plano e fazer festas a um gato chamado Taj Mahal no hostel de Nova Orleães. Nesse momento sente-se saudades de casa, do conhecido, da segurança, de conforto, de conversas normais e fazer actividades normais. Mas depois, chega-se à conclusão que não há melhor sítio para se estar, que a segurança de casa é um mito... Quando se olha para trás no calendário e um mês e uma semana são o equivalente a seis meses, sabe-se que o propósito desta insanidade é o mais correcto. 

Os momentos de contacto imediato com a humanidade, com a bondade infinita do universo faz-me olhar para trás e para todas as pessoas que deram mais do que era sua obrigação. Esses momentos são dificeis de encontrar quando não se viaja, são esses momentos que mudam a maneira como se pensa e se vê mundo e nos sentimos em contacto com a bondade e o amor que existe no mundo.



Love,
João

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A flor do Lis no Mississipi

New Orleans, Bairro Francês

Estes últimos dias têm sido cansativos, uma viagem de mais de 19 horas, a cruzar os estados da Florida, Alabama, Mississipi e Louisiana. Arranjar sítio onde dormir há última hora. Criar tempo para o trabalho que foi deixado para trás durante esses dias e ter tempo para planear a estadia na próxima cidade, o workshop que vamos dar, o espaço para o Salón, onde falamos sobre sedução, amor e romance. Todas estas questões logisticas deixam pouco tempo para me concentrar em actualizar os vários blogues que tenho. 

E essa é a principal razão porque uma cidade tão incrivel como Miami, apenas tem um texto dedicado. Com certeza que há muito mais a dizer sobre Miami do que os desfiles dos corpos, as praias e a máscara que todos usam com os seus adereços. É claro que há. Histórias das pessoas que cruzaram o meu caminho, a parte não turistica longe dos Lamborghinis e Porsches. Mas há algo na minha mente que tem que ser atirada cá para fora e que merece mais um texto...

Nova Orleães. Se há uma cidade que merece um lugar especial para fazer turismo na América do Norte é Nova Orleães. É uma cidade que me dá prazer em aqui estar. Esta parte da América tem um pouco de europeu, uma parte do velho continente estou a precisar e fico contente por sentir. 

Aqui o ciclone Katrina deixou uma cicatriz permanente: há casas abandonadas, as estradas estão rachadas e por vezes sentimos que é preciso por o carro no modo de tracção às quatro rodas devido ao mau estado do asfalto. Dá para ver que é uma das cidades mais pobres que visitei neste lado do oceano e ao mesmo tempo tem um charme que não deixei ninguém indiferente.

Estamos a conduzir na parte central da cidade e é uma cidade tipicamente americana: as casas de madeira, o pequeno jardim à frente, o gradeademento de arame e quarteirões inteiros unicamente habitados por pessoas negras. Depois há uma avenida, cruza-se essa avenida e estamos no quarteirão francês e aí respira-se um ar diferente e podia perfeitamente ser parte de uma qualquer cidade mediterranica.

Disseram-me que Montreal era a cidade europeia da América do Norte, na verdade é uma versão amadora de Nova Orleães. 

O curioso é que este bairro não tem arquitectura francesa, mas sobretudo espanhola, - visto que a cidade foi vendida à coroa espanhola durante algumas dezenas de anos, por Napoleão. As varandas são de ferro trabalhado, os candeeiros são tão velhos como as pedras da rua, os jardins aparados e as casas coloridas. Há anjos e santos a olhar o céu e se a bandeira americana está presente, é curioso encontrar tantas vezes a flor de Lis pela cidade. 

Para além disto, há casas de voodoo, há os saxofones nas ruas e os bares de madeira, tal como as tavernas escuras e de cerveja forte. 

Algo que tenho que escrever e que traz o aspecto de candomblé e voodoo para o cenário são as bonecas penduradas na porta de algumas casas e os longos cemitérios que se vêem da auto-estrada, de pedra cinzenta, agastados pelo tempo e inundações e claro: as cruzes, os campanários e naqueles de adoração as macumbas, feiticarias e desejos que se espera serem realizados com a intervenção daqueles que estão no outro mundo.

E escrevo tudo isto depois de estar 4 horas nesta cidade...

E eu? Eu estou bem, fomos buscar um amigo ao aeroporto e nos próximos dias vou substituir o chão por um sofá e os calções e mangas caviadas, por calças de ganga e casacos. Já não estou nos trópicos e os sofás sempre são mais confortáveis.



Love,
João

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

19 horas de viagem

Ontem conduzimos mais de 19 horas desde Miami até Nova Orleães, cruzando os estados da Florida, Alabama, Mississipi e Louisiana.

Aqui fica registado um dos momentos de insanidade da viagem:




Love,
João

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Simplicidade

Miami Beach, Florida

Para aqueles que se questionam de o porquê de ter escrito dois textos praticamente identicos, aqui fica a resposta:

Os dias na estrada deixam-me confuso quanto àquilo que tenho que fazer, que fiz e sobre o que devo de escrever. Por isso, quando escrevi o último texto não fazia a menor ideia que já tinha abordado o tema anterior. Coisas que acontecem...

~~~

Há algo de mágico em escrever isto a partir dos jardins de uma villa, em Miami Beach. Lembro-me, ainda antes desta viagem ter começado, que iamos cobrir a maioria das grandes cidades da América do Norte e ficava a faltar Miami... E assim o destino colocou-nos aqui, no calor tropical de Novembro, em que a regra é calções, óculos de sol e havaianas.  Sim, isto em Novembro...

Miami é uma cidade engraçada, para além das praias magnificas e feitas pelo homem, - consegue-se sentir o betão por baixo da areia-, o que mais me fascina é a identidade tão própria da cidade, que a maioria das cidades americanas não tem. Aqui as pessoas têm um sentido próprio de como se vestir, como andam e como se comportam é como se estivessem sempre observados por uma câmara que os pode transportar para o palco da fama. 

Assim, tudo é pensado: o guarda-roupa e claro: o carro que conduzes diz mais sobre ti do que qualquer palavras que possas dizer, não esquecendo os corpos tonificados que se exibem na praia. Quem não é visto, não é lembrado e toda a gente se lembra disso mesmo.

Lamborghinis, Ferraris, Corvettes, BMW's modificados, aparelhagens ambulantes, tatuagens a corbrir os corpos e cinturas bamboleantes e rabos trabalhados. É um baile de máscaras em que a máscara és tu mesmo e aquilo que queres transmitir.

Para além desta identidade tão própria, em Miami fala-se tanto inglês, como se fala espanhol. Ouve-se francês e a quantidade de pessoas a falar russo é para além daquele que se pode imaginar. Já para não falar da pequena Havana e dos bairros criolos do pequeno Haiti e Jamaicatown.

Miami é uma das minhas cidades preferidas, sem sombra de dúvida. E a toda esta paisagem construída pelo homem em interface com a natureza à volta, junta-se o facto de ter dormido numa cama de verdade, pela primeira vez em mais de um mês. Isso mesmo, dormi numa cama, com colchão, lençois e cobertores e tinha a cama só para mim. Isso foi bom! Mas claro, em todos os sonhos chega uma altura em que acordamos e voltamos à realidade e volto a aprender a viver sem luxos: voltar a dormir no chão, com um blazer para me cobrir e um monte de camisolas a fazer de almofada, mas será que me posso queixar? Esse é um pequeno preço a pagar pela liberdade de poder fazer aquilo que quero, quando quero e viver na liberdade total de não saber onde vou passar a próxima noite e os próximos dias. É o reverso da medalha e não custa tanto como pensava, uma vida sem luxos e com simplicidade máxima é uma bela lição para me aperceber do quão preciso para ser feliz.

É um reset total a tudo aquilo que pensei ser necessário para viver e ser feliz.

Este é o outro reverso da medalha:



Amor,
João

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rock N' Roll

Nashville, Tennessee

Nas terras do rock tem que se ser uma estrela de rock.

Foi na última sexta-feira à noite do MidWest e depois passamos pelo Sul Profundo da América, onde o coração deste país bate e as pessoas são o exemplo típico e tantas vezes caricaturado do que é ser americano. A parte engraçada é que não é caricaturado, é real. Sim, no Kentucky as pessoas são tal como imaginas: sem dentes, com uma forma engraçada de falar, vestidas com a pior roupa que se pode imaginar num país de primeiro mundo e o simples facto de seres europeu traz para a mesa um fascínio dificil de igualar.

E o que dizer de Nashville... Também é verdade: as pessoas são obesas, simpáticas e também olham para mim como se fosse uma espécie à parte do mundo em que vivem. O simples facto de vestir calças que não são de ganga ou de fato de treino é um sinal claro que vês o mundo de uma forma diferente. 

Ser visto como uma estrela rock é engraçado porque as pessoas começam a perguntar-te como é a tua vida no outro lado do oceano, abrem os olhos quando falas com um sotaque diferente e as pupilas dilatam quando dizes que és um dating coach em viagem pelos Estados Unidos. Quando estamos sentados num restaurante, ligamos a câmara e discutimos os temas de amor, romance e sedução que nos passam pela cabeça e nesse momento todo o restaurante mergulha num grande silêncio e as cabeças torcem-se na nossa direcção e claro, no fim toda a gente quer fazer pergunta sobre quem nós somos, o que estamos ali a fazer e sobre exactamente o que é um dating coach.

Mas o que é uma rock star sem o apelo gritante feminino? No Midwest nada escapa à regra, tu és o objecto de desejo e há uma concorrência nos olhares que se cruzam na tua direcção. É estranho e demora algum tempo até me habituar a toda uma nova dinâmica: tens uma rapariga ao teu lado a dançar, outra à tua frente e na verdade não gostas de nenhuma delas. Mas o que podes fazer?! Sorris, dás dois paços de dança e de repente estás a ser puxado pelo cachecol e amarrado aos braços de uma rapariga que não conheces e não é lá que queres estar. Nesses momentos esqueces as raparigas de quem gostas, porque as que não gostas impedem-te de fazer seja o que for.

Contudo, por vezes surge a janela de oportunidade abre-se e tens a rapariga onde todos os olhares do bar residem e vais falar com ela. As mulheres bonitas, em discotecas, são iguais em todo o mundo: tens que ser muitas vezes rejeitado para conseguires ver a verdadeira pessoa, certo?

Nem por isso... A surpresa é ainda mais quando essa mesma rapariga passado alguns minutos de conversa te pergunta pelo número de telefone e diz que queria ir falar contigo há mais de meia hora, mas estava demasiado nervosa para o fazer...

Falemos em choques culturais!

O impacto está lá, mas na verdade não é exatamente isso que somos? Estrelas de rock na estrada em digressão pelos Estados Unidos: cansados e mesmo assim actuamos; esfomeados, mas temos que dar tudo aquilo que temos durante as três horas de conversa para arranjar clientes; respondemos a perguntas e damos conselhos quando o corpo pede por descanço; não se dorme há mais de dois dias, mas não há uma noite em que a desculpa de estarmos demasiado cansados nos impeça de sair à noite...

Aqui o dia de amanhã não existe, somos confrontados com a aventura da estrada, em que só o momento interessa. Não é preciso comer, porque o entusiasmo nos alimenta. Não é preciso dormir, porque sonhamos acordados. 

Tudo é vivido intensamente, tudo se ergue e desaparece em segundos.

Somos baratas, não temos nada e sobrevivemos a tudo. A essência do ser vem das novas experiências, dos vários choques que sentimos no corpo, dos estados de euforia até aos estados de querer esmurrar alguém na cara. E contudo, são nas horas de verdadeiro silêncio, quando todo o carro adormece sobre a escuridão da noite e as longas rectas se desenrolam é que se encontra a paz de espiritio e me encontro com aquilo que mais desejo e aí um sorriso de certeza se ergue nos lábios.

Love,
João