Este texto foi escrito no dia Domingo, 24 de Novembro.
Las Vegas, Nevada
Hoje é domingo. Na verdade, não sei qual é a diferença entre um domingo ou uma quarta-feira e é normal perguntarem-me que dia da semana é e eu não saber o que responder. Se isso acontece em estado normal, no dia de hoje é elevado a mil.
Com o dia de sexta e sábado juntos, o total de horas de condução foi de 34. O défice de horas de sono transformou-se numa besta de três cabeças, - sendo uma delas, por acréscimo, o gasto em gasolina. Hoje dormi 10 horas seguidas e o meu cérebro parece que abandonou o corpo e neste momento está a caminhar por Las Vegas Boulevard, numa manhã tranquila de domingo.
Esta é a segunda vez que estou em Las Vegas e devo de dizer que não sei se adoro esta cidade ou não gosto absolutamente nada. A verdade é que L.V. foi um roteiro escolhido à última hora e não estava nos planos. O que tinha sido decidido ainda em Nova Orleães, era ir de Santa Fé para Phoenix e chegar no ínicio desta semana a Los Angeles, contudo o contacto que tinhamos em Phoenix desapareceu e vimo-nos obrigado a criar uma nova rota.
O plano agora é o seguinte: Las Vegas, Yosimite National Park, a região vinhateira de Modesto e a meio da semana chegar a São Francisco e ficar lá até ao fim-de-semana de Acção de Graças, depois resta a cidade dos anjos onde nos vamos estabelecer até ao vôo de partida.
Mas lá está, a essência desta viagem são as horas passadas na estrada, as milhas percorridas e as paisagens porque passamos. Assim, tem pouca importância se estamos em Las Vegas ou em Phoenix, - se bem que não posso negar o entusiasmo que senti quando passamos pelo barragem Hoover e as luzes da cidade se estenderam por quilómetros sem fim, num enorme clarão que faz desta a cidade mais luminosa do mundo.
Contudo, o propósito deste texto não é escrever sobre esta cidade ou mesmo sobre Santa Fé, que é inacreditavel na sua imagem perfeita daquilo que é o Novo México. A razão de estar a escrever este texto é a viagem do dia de ontem.
A auto-estrada 40 Oeste é a paralela à Route 66, a histórica estrada que transportou hippies, toda uma generação de beatnicks e um sem número de famílias durante gerações rumo à costa dourada de Santa Mónica. Hoje em dia, já ninguém conduz na estrada 66 e tudo o que resta são preços de gasolina elevados e restaurantes presos nos anos 60/70 com música de época, alcatifas velhas, televisões a reviver os períodos gloriosos da rota e o cheiro a deserto.
Mas é todo esse cliché que fez desta viagem a mais bela desde que aqui estou. Quando se atravessa o Arizona, há quilómetros de planicie em todas as direcções, que só acabam quando a vista não alcança mais e o horizonte se funde com o céu acima de nós. E depois, depois há os enormes desfiladeiros de terra vermelha que se erguem a partir do nada, as elevações que aparecem e desaparecem, os desfiladeiros criados pelas chuvas e sem esquecer o clássico mito do oeste que são os comboios de mercadoria, que se estendem por mais de 3 quilómetros, vagão após vagão, puxados por uma locomotiva que atravessa o deserto rumo a Norte. Nestas horas sentia-me pequeno, minúsculo no meio de todas as planícies sem fim, naquelas montanhas que não terminavam, nos desfiladeiros, canyons e pequenos rios. Esta é a paisagem que imaginamos quando se pensa numa RoadTrip, a imagem que é disparada pela mente quando associamos a conduzir pela América do Norte.
E é tal como se imagina. As rectas são infinitas e a grandeza da natureza à volta é gigantesca, sentimo-nos engolidos por todo o cenário que circunda a pequena cápsula do carro, que como uma sete vermelha rasga o vento em direcção ao destino final.
Descrever uma paisagem destas, a sensação que nos transmite, é uma tarefa díficil porque não é algo palpável, não é algo que se consiga apontar há monumentalidade do momento. Apenas consigo dizer que é a melhor demonstração da grandiosidade da natureza, do quão inatingivel consegue ser.
As horas na estrada também não trazem nada de palpável para quem está do lado de fora, 15 horas fechado num carro... Chega-se a um momento em que não se sente o tempo a passar, tudo se transforma e altera, as horas de silêncio e as longas conversas, o encontro com os pensamentos, para a seguir se perder tudo e não se ter a certeza de nada, ou daquilo que se quer.
Daqui a dois dias, é o Parque Nacional de Yosimite, se entretanto não houver mais textos é porque fui devorado por um urso numa qualquer floresta do norte da California. ;)
Paz,
João





