Talvez viajar não seja algo para mim, talvez não seja algo para ti... Porque tem a potencialidade de arruinar a tua vida, tal como a conheces.
Quando se toma a decisão de viajar por mais de uma semana, - quer seja um mês, três ou até um ano e mais do que isso -, o grande factor que influência é a necessidade de fazer algo mais, de saber que há mais para além do imediato à nossa frente. Não se pode contrariar esse apelo e quem o sente com a mesma força que eu sinto: ou acabava confortavelmente adormecido na sua vida de aborrecimento ou deixa tudo para trás e atira-se à aventura.
O problema disto é que quando voltas: tudo está exatamente igual. Podem haver algumas obras na estrada por que conduzes, alguém pode ter começado a namorar, ou acabado... mas na grande generalidade, tudo permanece exactamente igual. Mesmo que estejas longe de casa durante um ano, nada irá estar mudado.
E tu... tu mudas-te. Tu és uma pessoa diferente, com uma visão diferente, com vontades que não tinhas quando saíste de casa, com uma mentalidade que quem ficou em casa não conhece. Quando chegas olhas para tudo à tua volta e nessa estranha familiaridade, percebes que aquilo que associavas como sendo a tua cidade, agora não te diz absolutamente nada. Um vazio total.
O teu quarto de infância parece uma memória viva do passado. As conversas com os amigos são vazias. As discussões em casa desnecessárias e os problemas políticos e económicos tão distantes que te perguntas o porquê de alguém querer saber disso mesmo.
Durante uns dias podes ser a nova mascote das pessoas conhecidas, com dezenas de perguntas gerais, mas passado alguns dias isso desaparece e ninguém pode aguentar mais contar-te o que eles fizeram durante o tempo que estiveste fora.
E... nada disso interessa.
Tudo aquilo em que consegues pensar é em pegar na mala, meter roupa lá dentro e voltar a partir para um qualquer outro lugar, em que não conheças ninguém e possas viver dias de aventura, um a seguir ao outro e deixar a estagnação, a que um dia associaste com a "tua" cidade.
Quando viajas não voltas a pensar como antes. Não voltas a ver o mundo da mesma maneira. Não voltas a ver uma noite entusiasmante como uma saída a uma discoteca em que toda a gente ficou alegre e uma rapariga te pediu o número.
Depois de teres saltado de um avião, te teres explorada as partes mais inóspitas de um continente, de teres presenciado beleza com os teus olhos (que não se consegue explicar), depois de teres estado nas melhores festas do mundo... Como é que tudo pode continuar igual?
Eternamente deslocado e a voz da estrada continua a chamar-te.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Quando Viajar Corre Mal...
...e Tenho Que Tirar Uma Fotografia Na Casa De Banho. Já vais perceber...
Apesar de viajar ser uma das coisas que mais gosto de fazer, sou o primeiro a admitir que nem tudo corre conforme o planeado. E se na altura não vais achar piada nenhuma ao que te está a acontecer, quando recordares do que aconteceu até vais soltar um sorriso e lembrar-te com um misto de entusiasmo e saudades do tempo em que tudo era mais imprevisível. (Com a excepção de quando te tentam roubar descaradamente...)
Nesta última viagem, sem escapar há regra ocorreram muitos incidentes, uns mais divertidos que outros, outros mais graves e outros tão banais como correr como um louco por uma estação búlgara, em que ninguém fala inglês para apanhar um comboio às 7.15 da manhã.
Mas hoje lembrei-me de um incidente deveras caricato e bastante doloroso. A razão de me ter recordado, do que estou prestes a desvendar é porque tenho passado uma série de dias com enxaquecas que não me deixam concentrar, e assim escrever e editar o meu livro.
Contudo tenham atenção, há imagens bastante gráficas que poderão não querer ver...
Tinha acabado de chegar ao hostel em Podgorica, em Montenegro - que na verdade se lê Podgoritsa. A viagem de barco, como já relatei anteriormente, demorou mais de 12 horas e de Bar até à capital montenegrina tive que apanhar um comboio que acrescentou meia hora à viagem. Estava desidratado, não dormia há mais de 24 horas e a última refeição tinha sido às 7 da tarde do dia anterior.
Para piorar a situação, lembrei-me que não sabia as indicações para o hostel. Um hábito que adquiri pela confiança própria de viajar e de que tudo se resolve. Caminhei pelas ruas de Podgorica, quilómetro atrás de quilómetro até finalmente encontrar o hostel. Sendo a única parte positiva o facto de ter visitado o centro da cidade, sem saber que o tinha feito.
Quando chego, finalmente, ao meu quarto decido que preciso de um banho, visto que me sentia absolutamente nojento. Saio da banheira, visto-me e sei que antes de comer preciso urgentemente de dormir. Encosto a mala à parede e tento encontrar o carregador do telemóvel algures na mala, para carregar o meu aparelho. Fecho a janela imediatamente à minha frente e depois de arrumar a mala, levanto-me e...
Dou dois passos para trás, sinto a cabeça a abrir-se ao meio e deito as mãos ao cabelo. Olho, sem conseguir pensar e vejo o meu braço coberto de sangue.
O inicio ideal para uma viagem...
O tipo do hostel diz que não devo de precisar de pontos. Vou com um tipo australiano a uma farmácia e a resposta da menina de bata branca é tão simples como: "Não consigo ver nada, tens a cabeça coberta de sangue." Muito obrigado! Segundo ela, tinha duas opções: 1) levar pontos ou 2) por água oxigenada.
Pensei por breves segundos.... Se levasse pontos tinha que ir até a um hospital, em que desconhecia as condições higiénicas. Depois ia passar por mais uma quantidade de dor que não me parecia desejável. Dali a uma semana estaria na Albânia, depois na Macedónia... E provavelmente teria que rapar o cabelo, pois teria que andar com um penso monstruoso no topo da cabeça. E o pensamento simples de ter que... levar pontos no topo da cabeça... Já tentaste pegar em pele no topo da tua cabeça? Simplesmente não consegues e isso assustou-me.
Se não levasse pontos e apenas pusesse água oxigenada, só tinha que o fazer de hora a hora até parar de sangrar, visitar a cidade e esperar pelo melhor.
Não pareceu uma decisão difícil. Não a mais sensata, mas sem dúvida, a mais fácil.
O curioso é que na altura me pareceu a pior coisa que me podia acontecer, e por momentos tudo aquilo que quis era estar de volta a Portugal, em que tudo era familiar e sabia como as coisas funcionavam. Admito, disse mal da minha vida.
Mas agora olhando para trás, até é uma história engraçada e não me parece que as minhas capacidades tenham ficado reduzidas, certo?
Se um dia tiver que rapar a cabeça e uma rapariga me perguntar o porquê daquela cicatriz, que vim mais tarde a saber que devia ter levado sete pontos, posso sempre dizer que foi a salvar uma família indefesa num conflito armado em Montenegro, contra um exército deslocado da guerra dos Balcãs, enquanto fugia de soldados altamente treinados pelos destroços bombardeados de uma qualquer cidade. E sim, lutei bravamente e nunca tive medo!
Assim, tenham boas viagens durante este Verão e não se deixem assustar por adversidades, que no momento parecem gigantes, mas que na grande perspectiva das coisas são na verdade bastante insignificante e algo divertidas.
Apesar de viajar ser uma das coisas que mais gosto de fazer, sou o primeiro a admitir que nem tudo corre conforme o planeado. E se na altura não vais achar piada nenhuma ao que te está a acontecer, quando recordares do que aconteceu até vais soltar um sorriso e lembrar-te com um misto de entusiasmo e saudades do tempo em que tudo era mais imprevisível. (Com a excepção de quando te tentam roubar descaradamente...)
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| A acção de hoje decorre em Podgorica... |
Nesta última viagem, sem escapar há regra ocorreram muitos incidentes, uns mais divertidos que outros, outros mais graves e outros tão banais como correr como um louco por uma estação búlgara, em que ninguém fala inglês para apanhar um comboio às 7.15 da manhã.
Mas hoje lembrei-me de um incidente deveras caricato e bastante doloroso. A razão de me ter recordado, do que estou prestes a desvendar é porque tenho passado uma série de dias com enxaquecas que não me deixam concentrar, e assim escrever e editar o meu livro.
Contudo tenham atenção, há imagens bastante gráficas que poderão não querer ver...
Tinha acabado de chegar ao hostel em Podgorica, em Montenegro - que na verdade se lê Podgoritsa. A viagem de barco, como já relatei anteriormente, demorou mais de 12 horas e de Bar até à capital montenegrina tive que apanhar um comboio que acrescentou meia hora à viagem. Estava desidratado, não dormia há mais de 24 horas e a última refeição tinha sido às 7 da tarde do dia anterior.
Para piorar a situação, lembrei-me que não sabia as indicações para o hostel. Um hábito que adquiri pela confiança própria de viajar e de que tudo se resolve. Caminhei pelas ruas de Podgorica, quilómetro atrás de quilómetro até finalmente encontrar o hostel. Sendo a única parte positiva o facto de ter visitado o centro da cidade, sem saber que o tinha feito.
Quando chego, finalmente, ao meu quarto decido que preciso de um banho, visto que me sentia absolutamente nojento. Saio da banheira, visto-me e sei que antes de comer preciso urgentemente de dormir. Encosto a mala à parede e tento encontrar o carregador do telemóvel algures na mala, para carregar o meu aparelho. Fecho a janela imediatamente à minha frente e depois de arrumar a mala, levanto-me e...
Dou dois passos para trás, sinto a cabeça a abrir-se ao meio e deito as mãos ao cabelo. Olho, sem conseguir pensar e vejo o meu braço coberto de sangue.
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| O meu fabuloso e danificado crânio. (e provavelmente a única fotografia que tenho numa casa de banho) |
O inicio ideal para uma viagem...
O tipo do hostel diz que não devo de precisar de pontos. Vou com um tipo australiano a uma farmácia e a resposta da menina de bata branca é tão simples como: "Não consigo ver nada, tens a cabeça coberta de sangue." Muito obrigado! Segundo ela, tinha duas opções: 1) levar pontos ou 2) por água oxigenada.
Pensei por breves segundos.... Se levasse pontos tinha que ir até a um hospital, em que desconhecia as condições higiénicas. Depois ia passar por mais uma quantidade de dor que não me parecia desejável. Dali a uma semana estaria na Albânia, depois na Macedónia... E provavelmente teria que rapar o cabelo, pois teria que andar com um penso monstruoso no topo da cabeça. E o pensamento simples de ter que... levar pontos no topo da cabeça... Já tentaste pegar em pele no topo da tua cabeça? Simplesmente não consegues e isso assustou-me.
Se não levasse pontos e apenas pusesse água oxigenada, só tinha que o fazer de hora a hora até parar de sangrar, visitar a cidade e esperar pelo melhor.
Não pareceu uma decisão difícil. Não a mais sensata, mas sem dúvida, a mais fácil.
O curioso é que na altura me pareceu a pior coisa que me podia acontecer, e por momentos tudo aquilo que quis era estar de volta a Portugal, em que tudo era familiar e sabia como as coisas funcionavam. Admito, disse mal da minha vida.
Mas agora olhando para trás, até é uma história engraçada e não me parece que as minhas capacidades tenham ficado reduzidas, certo?
Se um dia tiver que rapar a cabeça e uma rapariga me perguntar o porquê daquela cicatriz, que vim mais tarde a saber que devia ter levado sete pontos, posso sempre dizer que foi a salvar uma família indefesa num conflito armado em Montenegro, contra um exército deslocado da guerra dos Balcãs, enquanto fugia de soldados altamente treinados pelos destroços bombardeados de uma qualquer cidade. E sim, lutei bravamente e nunca tive medo!
Assim, tenham boas viagens durante este Verão e não se deixem assustar por adversidades, que no momento parecem gigantes, mas que na grande perspectiva das coisas são na verdade bastante insignificante e algo divertidas.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Segundo Apelo À Insanidade
Vivemos na época mais segura de sempre na história da humanidade e mesmo assim, tudo o que nos dizem e ouvimos nas notícias é: "O mundo é perigoso" ou "Tem cuidado!"
Tudo aquilo que fazemos é controlado, contido numa redoma de vidro cristalino que nos deixa seguros e ultimamente, aborrecidos…
Aborrecidos e entediados no nosso sonambulismo suburbano.
Contudo fugimos do conceito de aventura, de fazer algo que nos coloque fora da nossa zona de conforto, que nos assuste.
A moderação é a mãe de toda a mediocridade.
Tudo o que tens são as tuas memórias, são as lembranças que transportas contigo. A aventura, o sentimento de perigo, de te assustares, são o propulsor de uma vida memorável, de histórias que não contas e guardas para ti, porque não se consegue explicar e ninguém irá entender.
Se no processo aborreceres algumas pessoas e quebrares algumas regras, é porque estás a fazer algo certo.
À insanidade!
Tudo aquilo que fazemos é controlado, contido numa redoma de vidro cristalino que nos deixa seguros e ultimamente, aborrecidos…
Aborrecidos e entediados no nosso sonambulismo suburbano.
Contudo fugimos do conceito de aventura, de fazer algo que nos coloque fora da nossa zona de conforto, que nos assuste.
A moderação é a mãe de toda a mediocridade.
Tudo o que tens são as tuas memórias, são as lembranças que transportas contigo. A aventura, o sentimento de perigo, de te assustares, são o propulsor de uma vida memorável, de histórias que não contas e guardas para ti, porque não se consegue explicar e ninguém irá entender.
Se no processo aborreceres algumas pessoas e quebrares algumas regras, é porque estás a fazer algo certo.
À insanidade!
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| Fotografia: Viagem de comboio entre Sófia e Bucareste. Junho de 2014 |
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