sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Riga a Frio





24 Janeiro 2015

Riga. De todos os destinos que pensei visitar com alguma proximidade Riga não era um deles. Aliás neste momento nem devia estar a viajar porque há demasiado a fazer... eu sei, parece impossível eu escrever isto, mas é por um bom motivo. Contudo sabe bem, sabe bem voltar a escrever com o mesmo cansaço, com a mesma violenta pressão sobre as páginas do caderno tal como fazia quando estava algures pelo interior dos Estados Unidos. Pequenos fragmentos de memória que aparecem inesperadamente.

Riga é o mais para Leste que já estive, apenas alguns quilómetros mais do que Bucareste ou Sófia, mas é. É uma cidade que para nós - desta vez não viajo sozinho - não há sol. Chegamos na madrugada de sexta e logo no aeroporto parecia que estávamos a desembarcar num qualquer aeroporto remoto da Sibéria. A neve amontoava-se para deixar a pista limpa, uma neblina fantasmagórica cobria o ar e saíam nuvens de fumo da boca sempre que falávamos. Nessa mesma noite, apesar do cansaço, das cervejas bebidas, das horas que não foram dormidas quer em casa, quer no avião e também no aeroporto... decidimos sair e descobrir a cidade.

Ficamos como vagabundos até as 7 da manhã. Conhecemos portugueses, logo aqui conhecemos mais portugueses do que alguma vez pensei encontrar numa cidade da Europa de Leste e desengana-se quem pensa, inocentemente como nós, que esta é uma cidade barata. Pois não é... Mas quem sou eu para avaliar o padrão de vida de uma cidade da qual apenas conheço a noite, marcas de cerveja e o nome de algumas letãs que se passeavam a horas tardias por bares e cafés?

Riga é a conjugação de dois mundos: o passado soviético com o futuro europeu. Tal como em qualquer cidade além da antiga cortina de ferro, a cicatriz da ditadura comunista está bem presente e parece que aqui toda a gente fala dos russos com cuidado, entre sussurros e respirares de orelha. Baixinho porque senão alguém pode estar a ouvir. (40% da população de Riga é russa)

O que vamos fazer a seguir? Não sei, mas duvido que inclua museus, palestras de escritores ou histórias sobre história do século XX.

Nem sei quantas horas dormi hoje, mas devo ter dormido mais do que irei dormir nos resto dos dias que aqui estou.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Memória Permanece Viva

Há quem veja viajar como apenas tirar uns dias da rotina em que vive. Eu vejo viajar como um modo de conhecer, de experienciar, de sentir à flor da pele outras realidades o mais próximo possível. Hoje relembra-se Auschwitz. Estive lá há mais de 3 anos, foi e continua a ser o local do mundo que mais me marcou, que mais mexeu comigo. O local que visitei e me ficou na memória até hoje.

Ali não dá para se expressar o que se sente, não dá para perceber onde se está e o único pensamento que me ocorria era: "Este sítio não devia de existir", mas existe.

Esta linha foi a viagem final para milhões de pessoas, o que nos dizem ali segundo as palavras originais dos oficiais nazis ainda hoje me arrepiam, sente-se um aperto na garganta. A personificação de inferno na terra.

As minhas palavras nunca poderão fazer justiça ao que ali se passou, ao que ali se sente.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Lêem-se livros pelas capas? E viagens?

Quantas vezes já ouviste esta frase: "Não julgues um livro pela sua capa"?

A verdade é que todos nós julgamos e por muito que tentemos não julgar os outros há sempre uma ponta de julgamento na parte de trás da nossa mente, um diálogo infinito de questões egoístas que nos fazem perguntar: Será que posso confiar nesta pessoa? Será que este sítio é seguro à noite? Este tipo está a dar-me o troco certo? Porque é que este tipo está a falar comigo? Quais são as intenções dele? Porque é que está a ser tão simpático? Este quarto não tem bom aspecto... Estas pessoas não têm bom aspecto.

Eu não sou diferente de ti se alguma destas perguntas te passam pela cabeça quando conheces alguém novo, ou alguém começa a falar contigo apenas porque sim. A parte engraçada disto é que por vezes EU TAMBÉM SOU JULGADO PELA MINHA CAPA. Ao longo das minhas viagens esta é uma constante e por vezes sinto que estou completamente fora do meu elemento.

Apesar de eu não falar albanês e o Markelino não saber inglês fomos dois animados companheiros de viagem durante 4 horas, entre Tirana e Berat. E sim esta é uma carrinha ilegal de transporte de passageiros em que cada pessoa paga literalmente o que quer à máfia local pela viagem.

Como sabes são poucas as coisas que levo comigo quando viajo e assim as alternativas que tenho são algo limitadas. E isto pode levar a situações que vão desde o cómico até ao liminarmente perigoso.

Imagina-te a caminhar em Nova Orleães, toda a gente veste casacos velhos e alguns rasgados, os seus sapatos são em segunda e terceira mão e em algumas pessoas consegue-se ver as meias a espreitarem por baixo, os gorros esfarrapados e as caras cansadas olham para ti atentamente conforme passas à frente deles que esperam por um autocarro e tu lá vais de casaco de cabedal com fecho assimétrico, calças de ganga da Levi's, uma bolsa Camel com um tablet lá dentro, botas de cabedal com um pormenor no calcanhar e com a barba cortada da mesma forma que tenho na fotografia do lado direito. (Aliás agora que me lembro essa fotografia foi tirada em Nova Orleães).

É uma situação algo caricata, mas não posso mentir e dizer que me senti totalmente seguro.

E se chegar exactamente da mesma forma à cidade de Elbasan, no interior da Albânia, com o acréscimo de levar um écharpe à volta do pescoço, uma mala de rodinhas e um boné?

A minha (triste) figura totalmente discreta antes de chegar a Elbasan.

Bem, nessa situação senti que era uma estrela famosa de algum clique exclusivo que caiu desamparada em Elbasan e a forma como as pessoas me viam era simplesmente no formato de notas de euros. Este caso levou-me à  situação potencialmente mais perigosa que enfrentei na minha vida.

Mas também acontece o contrário: Cracóvia, noite de sexta feira, estou de camisola de gola alta, sem cortar o cabelo à três meses, botas de montanha e calças demasiado sujas na entrada da melhor discoteca da cidade. Resultado, fiquei à porta.

Mas chega de falar de mim.

A verdade é que todos nós julgamos as outras pessoas com maior ou menor maldade, ninguém entre os viajantes tem um estatuto moral superior. Os backpackers troçam dos turistas, os turistas olham com desprezo para a falta de condições dos backpackers, os mais hippies olham com um misto de gozo e desdém para quem pára em hostels com malas de rodinhas e casacos de marca, os mais novos olham para os mais velhos em incompreensão e assim por aí adiante.

Estrada entre Berat e Elbasan, pouco mais de 200 km que se fizeram em 5 horas. Desta vez num autocarro normal.

Mas sabes qual é a parte positiva de tudo isto? Que no final, apesar das nossas diferenças somos capazes de nos sentar, por os julgamentos para o lado e conseguir ler os livros que estão à nossa frente com a mesma clareza que teríamos se não tivéssemos a voz do julgamento geral.

Apesar de julgarmos o livro pela capa acabamos sempre por o ler.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Porque Viajo Sozinho

Quando viajas sozinho não tens o luxo de tirar uma selfie, apenas esticas o braço e sorris para a tua mão. Viajantes solitários a tirar selfies ainda antes das selfies existirem.

"Amanhã vou comprar os bilhetes."
"Quando fores avisa-me que também vou contigo."
~~~~~
"Olha vou agora comprar os bilhetes, vens?"
"Pah, não vou agora, mas amanhã ou depois compro e vamos..."
~~~~
"Compraste os bilhetes?"
"Afinal não vou, vai haver uma..."

Estou a lembrar-me particularmente desta conversa que tive em Budapeste no Outono de 2011. Mas igual a esta existiram e vão existir muitas mais. Desde o profético "quando comprares avisa" ao não menos peculiar "A sério? Quando estiveres a preparar tudo diz que eu vou contigo."

Estas são promessas que muito raramente se tornam em realidade. A verdade é que a ideia é muitas vezes mais apelativa do que o acto de iniciar uma viagem. Mesmo quando há uma certeza absoluta é normal que uma festa de anos apareça, um compromisso que não podem desmarcar, alguém que marcou as férias por cima da deles ou então apanharam uma constipação...

O que isto me ensinou é que se estiver à espera dos outros... não vou a lado nenhum.

Figurativa e realisticamente.

Por isso eu recuso-me a esperar, há demasiados lugares para conhecer, pessoas com quem falar, comidas para experimentar e longas viagens que, sinceramente, são mais fáceis se as fizer sozinho.

Se estás a desmarcar viagens porque os outros não vão contigo ou as suas promessas não se concretizam, então tens que parar com isso. Eu sei que viajar sozinho pode ser assustador, principalmente se nunca o fizeste, mas vais ver que todo o medo irá desaparecer assim que aterrares no teu destino e o coração bater mais rápido de entusiasmo.

E não temas andar sozinho, porque dificilmente isso irá acontecer, - é mais provável que queiras passar algum tempo sozinho e não consigas. Ao longo dos anos fiz grandes amizades com perfeitos desconhecidos que estavam no mesmo hostel que eu, ou na mesma cidade. Fica a conhecer a história de como encontrei o Donald numa viagem de barco e me tornei amigo de um viajante solitário com 81 anos aqui: Conquista a Motivação para Viajar.

O Deni e a Caroline, em Viena. Três australianos em Bratislava. O Owen em Bucareste. O Michael, a Breannie e a Melissa em Cracóvia. O Jaklal e um tipo tunisino em Zagreb. O Ryan, a Jaclyn, o Jared, o Thomas e a Lauren pelos Balcãs....



Todas estas são pessoas com quem ainda falo e sei que se nos voltarmos a encontrar é como se ainda ontem nos tivéssemos visto. A verdade é que acabei por conhecer amigos destes amigos por recomendação deles. E eu sei que isto só aconteceu porque estava a viajar sozinho.

Quando viajas num grupo tens a tendência para te fechares e apenas falarem entre vocês, quando estás sozinho... bem, tens que falar com alguém e as outras pessoas estão mais dispostas a fazerem conversa contigo.

Viajar sozinho também te traz a derradeira liberdade: fazes o que queres, quando queres, onde queres e com quiseres. Acordas e estás sozinho, tens um dia inteiro pela frente e tens que o encher com alguma coisa e é aí que a aventura começa. Conheces os limites daquilo de que gostas e do que não gostas. Queres provar aquela comida esquisita da montra? Só tens que pedir. Queres ficar mais uns dias? Ficas. Queres ir embora mais cedo? Vais.

Quando viajas sozinho ou vai ou racha, como se costuma dizer. Aí tens que aprender em quem podes confiar, como fazer amigos, como encontrares o teu caminho sem a ajuda de ninguém, a desenrascares-te de situações potencialmente complicadas.

Sempre que viajas por tua conta vais crescer um bocado, vais tornar-te uma pessoa mais completa e independente, com uma nova visão sobre o mundo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os Melhores Destinos de 2014

5) Sófia, Bulgária

Catedral de Alexandre Nevski, no centro de Sófia

Sófia é sem dúvida uma cidade que não se esquece com facilidade. Primeiro, em que capital europeia ainda existem burros a puxarem carroças pelas avenidas da cidade? Não em muitas. Mas quantas cidades conseguem demonstrar a grandeza da arquitectura comunista como a capital da Bulgária? Poucas... Quantas juntam a isso um legado milenar de história, a sofisticação de uma das cidades mais evoluídas do antigo bloco de Leste e a atitude relaxada de uma cidade balcânica? Quase nenhuma...

Apesar de não ser uma cidade turística per se, apesar de não ter monumentos para ver durante dias sem fim, é impossível negar o qual agradável é chegar, estar e viver em Sófia. Há excitação nas ruas, há animação, há movimento. Há uma vida na cidade que nos faz ficar acordado noite dentro.

A Studenskigrad (cidade universitária) é lar dos bares mais animados, algures pelo centro distribuem-se várias discotecas que dão alegria aos búlgaros que se divertem ao final da semana, as esplanadas e restaurantes de comida de todo o mundo espalham-se pela Vitosha Street (a segunda rua mais cara do mundo há 15 anos atrás) e no centro de exposições do NDK podemos encontrar o melhor café da Europa de Leste, pelo menos na minha opinião, não fossem os fantásticos capuccinos e chás importados.


4) Salerno, Itália



Dentro das surpresas com certeza que Salerno é a surpresa. Antes de visitar esta cidade, onde termina a costa Amalfitana, pouco ou nada sabia sobre Salerno, aliás parecia-me uma cidade demasiado pequena.

Contudo, as duas semanas que lá passei este ano provaram-me que estava errado. A marginal de luongomare é perfeita para passeios ao final da tarde ou para fazer conversa com as dezenas de pessoas que por ali caminham ou descansam nos bancos a olhar para o mar. A "baixa" da cidade é agradável quanto baste com os inúmeros cafés, restaurantes e lojas italianas. As intricadas ruas da parte velha transportam-nos para o coração da Itália do Sul com os barulhentos lojistas, as cruas paredes de pedra negra e a azáfama das scooters rua acima e rua abaixo.

Para além disso Salerno apresenta uma posição estratégica no sul de Itália. A pouco mais de vinte minutos de Nápoles, depressa nos encontramos no centro da maior cidade do fundo da bota. Alguns quilómetros antes encontramos a mítica e eterna cidade de Pompeia. A duas horas de barco estamos na mais famosa ilha italina, a de Capri. A estação de comboios deixa-nos facilmente em qualquer outra cidade do sul: Taranto, Bari, Reggio Calabria, - por onde se consegue uma passagem para Messina de barco.

No meio de cidades enormes, Salerno ganhou o seu espaço no meu top das melhores cidades deste ano.


3) Roma, Itália



Roma é uma daquelas que cidades que por muito que se queira não gostar... é impossível. Roma é grandiosa, Roma foi em tempos o centro do mundo, Roma foi aquilo que cidades como Nova York, Shangai ou Londres são hoje em dia.

Roma é um enorme museu ao ar livre, onde em qualquer esquina se encontra um pedaço de história. Onde os olhos se abrem em admiração perante a grandeza dos monumentos e as filas de turistas são intermináveis.

Contudo, esta milenar cidade vive mais do que do turismo e dos monumentos construídos há centenas  de anos. Em Roma vive-se de uma maneira sui generis, o barulho das vespas contrasta com a maneira calma como os habitantes convivem uns com os outros em qualquer escadaria, como as esplanadas cheias de comida deliciosa e vinho tinto se estendem pelos passeios adornados por laranjeiras, com a maneira alegre e divertida como os italianos levam a vida, ao falarem demasiado alto, a praguejarem uns contra os outros e os movimentos exagerados das mãos...

Devo dizer que depois de visitar Roma fiquei com uma enorme vontade de lá voltar e ficar por lá durante uns tempos.


2) Budapeste, Hungria

Não a típica fotografia de Budapeste

Por esta altura não deve ser surpresa para ninguém o quão gosto de Budapeste. Depois de ter vivido mais de seis meses na capital magiar existem poucas coisas que sejam desconhecidas ou uma absoluta novidade para mim. Contudo estas existem, melhorando aquilo que já era bom.

Budapeste é cada vez mais uma cidade da Europa Central e menos da Europa de Leste. No espaço de dois anos a praça do Parlamento foi remodelada, um novo e polémico monumento foi erguido na entrada da Szabadság Ter, a Kalvin Ter foi finalmente reconstruída e agora é superfície para a segunda maior estação de metro da cidade, a estação de comboios de Kelety perdeu o seu ambiente escuro, decadente e perigoso e agora rivaliza-se como uma das estações de comboio mais modernas da Europa.

Para além disto a noite da cidade continua tão vibrante como a conhecia: bares abertos vinte e quatro horas por dia, os bares em ruínas como o Szimpla continuam a ser um albergue para os turistas jovens e ávidos de aventura, as discotecas como o Doboz e o Instant continuam a encher noite após noite e o Aquarium, um novo bar no centro da cidade perto da Erzsébet Ter anima todo o jardim.

E o que dizer a ilha Margerit em longos dias de Verão? Perfeita para te deitares na relva e ler um livro ou beber uma cerveja gelada.

Pronto... eu também tiro fotografias típicas de Budapeste :)


1) Bucareste, Roménia

Há algo de mágico, encantador e entusiasmante em relação a Bucareste. A primeira vez que visitei a capital da Roménia no Outono de 2011, esta era uma cidade bastante diferente. Grande parte do caos foi ordenado, as estradas foram asfaltadas, as pequenas ruas do Cidade Velha foram calcetadas e agora enchem-se de esplanadas, plantas decorativas, candeeiros adornados e de gente bem disposta e interessante.



Para além do custo de vida incomparavelmente baixo quando comparado com a maioria das grandes capitais europeias, o nível de diversão que se consegue ter num dia normal é algo que vai para além da minha compreensão imediata.

Em que outra capital se consegue almoçar três peitos de frango e beber uma caneca de cerveja por 3€? Em que outra cidade se consegue viver no centro do centro da cidade, num hotel de 4 estrelas por pouco mais de 100€? Em que país existem discotecas com três piscinas abertas ao público e que também estão abertas durante a tarde? Em que parte do mundo existem as melhores discotecas do mundo e que não têm qualquer preço de entrada ou de bengaleiro?

Discoteca Player em Bucareste... acredites ou não eram 8 da manhã
Parece o paraíso... sim parece, e essa é a razão porque gosto tanto de Bucareste. É a razão porque considero Bucareste uma cidade sem comparação e que consegue trazer a diversão de Las Vegas, a vivacidade de Londres, a beleza arquitectónica de Barcelona e os preços de um país da Europa de Leste tudo num só sítio.

O centro do centro de Bucareste, rodeado de cafés locais e à porta do hotel