New Orleans, Bairro Francês
Estes últimos dias têm sido cansativos, uma viagem de mais de 19 horas, a cruzar os estados da Florida, Alabama, Mississipi e Louisiana. Arranjar sítio onde dormir há última hora. Criar tempo para o trabalho que foi deixado para trás durante esses dias e ter tempo para planear a estadia na próxima cidade, o workshop que vamos dar, o espaço para o Salón, onde falamos sobre sedução, amor e romance. Todas estas questões logisticas deixam pouco tempo para me concentrar em actualizar os vários blogues que tenho.
E essa é a principal razão porque uma cidade tão incrivel como Miami, apenas tem um texto dedicado. Com certeza que há muito mais a dizer sobre Miami do que os desfiles dos corpos, as praias e a máscara que todos usam com os seus adereços. É claro que há. Histórias das pessoas que cruzaram o meu caminho, a parte não turistica longe dos Lamborghinis e Porsches. Mas há algo na minha mente que tem que ser atirada cá para fora e que merece mais um texto...
Nova Orleães. Se há uma cidade que merece um lugar especial para fazer turismo na América do Norte é Nova Orleães. É uma cidade que me dá prazer em aqui estar. Esta parte da América tem um pouco de europeu, uma parte do velho continente estou a precisar e fico contente por sentir.
Aqui o ciclone Katrina deixou uma cicatriz permanente: há casas abandonadas, as estradas estão rachadas e por vezes sentimos que é preciso por o carro no modo de tracção às quatro rodas devido ao mau estado do asfalto. Dá para ver que é uma das cidades mais pobres que visitei neste lado do oceano e ao mesmo tempo tem um charme que não deixei ninguém indiferente.
Estamos a conduzir na parte central da cidade e é uma cidade tipicamente americana: as casas de madeira, o pequeno jardim à frente, o gradeademento de arame e quarteirões inteiros unicamente habitados por pessoas negras. Depois há uma avenida, cruza-se essa avenida e estamos no quarteirão francês e aí respira-se um ar diferente e podia perfeitamente ser parte de uma qualquer cidade mediterranica.
Disseram-me que Montreal era a cidade europeia da América do Norte, na verdade é uma versão amadora de Nova Orleães.
O curioso é que este bairro não tem arquitectura francesa, mas sobretudo espanhola, - visto que a cidade foi vendida à coroa espanhola durante algumas dezenas de anos, por Napoleão. As varandas são de ferro trabalhado, os candeeiros são tão velhos como as pedras da rua, os jardins aparados e as casas coloridas. Há anjos e santos a olhar o céu e se a bandeira americana está presente, é curioso encontrar tantas vezes a flor de Lis pela cidade.
Para além disto, há casas de voodoo, há os saxofones nas ruas e os bares de madeira, tal como as tavernas escuras e de cerveja forte.
Algo que tenho que escrever e que traz o aspecto de candomblé e voodoo para o cenário são as bonecas penduradas na porta de algumas casas e os longos cemitérios que se vêem da auto-estrada, de pedra cinzenta, agastados pelo tempo e inundações e claro: as cruzes, os campanários e naqueles de adoração as macumbas, feiticarias e desejos que se espera serem realizados com a intervenção daqueles que estão no outro mundo.
E escrevo tudo isto depois de estar 4 horas nesta cidade...
E eu? Eu estou bem, fomos buscar um amigo ao aeroporto e nos próximos dias vou substituir o chão por um sofá e os calções e mangas caviadas, por calças de ganga e casacos. Já não estou nos trópicos e os sofás sempre são mais confortáveis.
Love,
João

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