É verdade, passados dois meses na estrada aberta, dois meses a contar quilómetros, pessoas e a amealhar memórias... Estou de volta a Portugal.
A chegada aconteceu, segunda-feira, às 11 da manhã quando aterrei no aeroporto de Lisboa, - quatro horas antes tinha chegado ao aeroporto internacional de Ponta Delgada, mas neste caso vamos considerar que os Açores não são Portugal. A sensação de tirar um pé da escada do avião e pousar em terra portuguesa foi uma mistura de sensações complicadas de explicar. Por um lado era díficil de acreditar que a viagem tinha acabado, que deixava Los Angeles para trás e há minha frente tinha Lisboa... Nada contra Lisboa, mas não posso negar o choque provocado no corpo quando olho para as matrículas dos carros e não estou à procura de que estado é. Louisiana? West Virginia? Colorado? Arizona? Agora as matriculas estão em português e até isso é demasiado familiar. Por outro lado estava prestes a ver a minha família... E ao mesmo tempo deixava para trás algumas das melhores pessoas que conheci.
No total foram mais de vinte horas de viagem. Duas no aeroporto de LAX, cinco horas de viagem até Boston, seis horas no terminal E, 4 horas sobre o Atlântico a ver filmes do Jim Carrey, 2 horas nos Açores, 2 horas até Lisboa, outras três de espera e a viagem em Alfa Pendular até ao Porto.
Claro que o meu cérebro estava vertiginoso com o jetlag, mas havia algo mais que isso...
Eu não gostei da cidade de Los Angeles: é demasiado extensa, é preciso carro para ir a qualquer lado, é suja, decadente e não é tão quente e amena como os filmes no fazem crêr. Contudo, foi onde me diverti mais durante os 2 meses de viagem. As cidades em si não são tão importantes como os guias de viagem nos dizem. Aquilo que importa em cada destino são as pessoas que se conhecem e o tempo de qualidade que se passa.
É uma realidade estranhar pensar que há pessoas que viajam para um destino, seja durante uma semana ou um mês, e acabam por não conhecer ninguém durante esse tempo. Qual é a essência de viajar senão conhecer novas pessoas e encontrar novas experiências?
Por exemplo, Toronto e Los Angeles são o exemplo perfeito disto. Austin, no Texas, apesar de ser uma cidade incrivel conseguiu tornar-se um pouco aborrecida, porque a minha rede de contactos não era muito extensa... Assim, quão importante é a funcionalidade de uma cidade, ou até mesmo a sua beleza, quando não se conhece ninguém lá? E diga-se, as cidades norte-americas não são perfeitas para se fazer turismo, porque o passado histórico... Aaaah, não existe.
As pessoas com que passei tempo em Los Angeles são algumas das pessoas mais divertidas que conheço e algumas são amigos para a vida. Durante a semana que lá passei, as conversas que tive com o Ryan, - um grande amigo e uma das pessoas mais inteligentes que conheço -, foram as mais profundas durante toda a viagem.
O Ryan para mim é Los Angeles, ele encarna a cidade na perfeição: é um tipo do Oklahoma, que foi para LA para ser actor. Não conseguiu, até agora... E neste momento, está em North Hollywood a montar a sua empresa de gelados, isto porque sofreu um acidente de mota quando ia a mais de 120 km/h na auto-estrada e está impedido de servir à mesa, devido ao seu pulso de titânio. Contudo, a sua maneira de pensar é algo de surreal e as conversas sucedem-se uma a seguir à outra, sem espaços de intervalo e num constante fluxo de consciência. Falar com ele é como entrar num transe de ayuasca, que só terminou quando o deixei para trás no aeroporto ao volante do Jeep Canyonero.
Já viram, ou leram, o On The Road? Pronto, o Ryan é a re-encarnação do Dean Moriarty. A energia, a conversa, a loucura, a condução rápida e a liberdade.
Se não fosse ele, LA era uma cidade aborrecida. Se não fossem as conversas, que tivemos a altas horas de madrugada a caminhar pelas ruas largas de Hollywood, eu ficava a sentir que algo tinha ficado por fazer. Ali a insanidade dos dias da estrada encontraram o fogo que a transformaram em energia, projectada em filosofia e histórias de passados distantes.
Ali a insanidade encontrou a sua tranquilidade e deixaram de haver barreiras. Ali a insanidade ganhou força e tornou-se adulta e controlada.
À La Folie!

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