Nashville, Tennessee
Nas terras do rock tem que se ser uma estrela de rock.
Foi na última sexta-feira à noite do MidWest e depois passamos pelo Sul Profundo da América, onde o coração deste país bate e as pessoas são o exemplo típico e tantas vezes caricaturado do que é ser americano. A parte engraçada é que não é caricaturado, é real. Sim, no Kentucky as pessoas são tal como imaginas: sem dentes, com uma forma engraçada de falar, vestidas com a pior roupa que se pode imaginar num país de primeiro mundo e o simples facto de seres europeu traz para a mesa um fascínio dificil de igualar.
E o que dizer de Nashville... Também é verdade: as pessoas são obesas, simpáticas e também olham para mim como se fosse uma espécie à parte do mundo em que vivem. O simples facto de vestir calças que não são de ganga ou de fato de treino é um sinal claro que vês o mundo de uma forma diferente.
Ser visto como uma estrela rock é engraçado porque as pessoas começam a perguntar-te como é a tua vida no outro lado do oceano, abrem os olhos quando falas com um sotaque diferente e as pupilas dilatam quando dizes que és um dating coach em viagem pelos Estados Unidos. Quando estamos sentados num restaurante, ligamos a câmara e discutimos os temas de amor, romance e sedução que nos passam pela cabeça e nesse momento todo o restaurante mergulha num grande silêncio e as cabeças torcem-se na nossa direcção e claro, no fim toda a gente quer fazer pergunta sobre quem nós somos, o que estamos ali a fazer e sobre exactamente o que é um dating coach.
Mas o que é uma rock star sem o apelo gritante feminino? No Midwest nada escapa à regra, tu és o objecto de desejo e há uma concorrência nos olhares que se cruzam na tua direcção. É estranho e demora algum tempo até me habituar a toda uma nova dinâmica: tens uma rapariga ao teu lado a dançar, outra à tua frente e na verdade não gostas de nenhuma delas. Mas o que podes fazer?! Sorris, dás dois paços de dança e de repente estás a ser puxado pelo cachecol e amarrado aos braços de uma rapariga que não conheces e não é lá que queres estar. Nesses momentos esqueces as raparigas de quem gostas, porque as que não gostas impedem-te de fazer seja o que for.
Contudo, por vezes surge a janela de oportunidade abre-se e tens a rapariga onde todos os olhares do bar residem e vais falar com ela. As mulheres bonitas, em discotecas, são iguais em todo o mundo: tens que ser muitas vezes rejeitado para conseguires ver a verdadeira pessoa, certo?
Nem por isso... A surpresa é ainda mais quando essa mesma rapariga passado alguns minutos de conversa te pergunta pelo número de telefone e diz que queria ir falar contigo há mais de meia hora, mas estava demasiado nervosa para o fazer...
Falemos em choques culturais!
O impacto está lá, mas na verdade não é exatamente isso que somos? Estrelas de rock na estrada em digressão pelos Estados Unidos: cansados e mesmo assim actuamos; esfomeados, mas temos que dar tudo aquilo que temos durante as três horas de conversa para arranjar clientes; respondemos a perguntas e damos conselhos quando o corpo pede por descanço; não se dorme há mais de dois dias, mas não há uma noite em que a desculpa de estarmos demasiado cansados nos impeça de sair à noite...
Aqui o dia de amanhã não existe, somos confrontados com a aventura da estrada, em que só o momento interessa. Não é preciso comer, porque o entusiasmo nos alimenta. Não é preciso dormir, porque sonhamos acordados.
Tudo é vivido intensamente, tudo se ergue e desaparece em segundos.
Somos baratas, não temos nada e sobrevivemos a tudo. A essência do ser vem das novas experiências, dos vários choques que sentimos no corpo, dos estados de euforia até aos estados de querer esmurrar alguém na cara. E contudo, são nas horas de verdadeiro silêncio, quando todo o carro adormece sobre a escuridão da noite e as longas rectas se desenrolam é que se encontra a paz de espiritio e me encontro com aquilo que mais desejo e aí um sorriso de certeza se ergue nos lábios.
Love,
João

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