Estar no Café Noir, na Cidade Velha, de Montreal só posso olhar com um brilho nos olhos para os últimos dias passados em Nova York. Por muito cliché que seja esta cidade é a capital do mundo, onde se podem encontrar todas as nacionalidades e se pode ouvir um sem fim de línguas a serem faladas pelas mais diferentes etnias.
A última noite em Nova York foi passada em Times Square, com o clarão dos ecrãs gigantes a fazer-me cerrar os olhos enquanto comia o último cachorro quente de uma banca operada por um tipo da Serra Leoa. Sozinho, com um sorriso na cara e com o coração cheio de memórias e felicidade sabia que não trocava aquele momento por nada neste mundo. Há coisas que não podemos substituir, as memórias são uma delas: não nas podem tirar e não se repetem, cada momento é absolutamente único e quem leu Kundera sabe que a maravilha da vida vem nos momentos mais repetitivos tal como nos momentos que nos fazem contemplar cada segundo e querer absorver todos os segundos.
Os encontros mais aleatórios acontecem sem estarmos à espera deles, pessoas que saiem das nossas vidas à mesma velocidade com que entraram: rápida e furiosamente. Não há tempo para complacência porque quando se vive na estrada os ponteiros do relógio não param e queremos tudo aqui e agora.
O dia de ontem, segunda-feira, foi passado em jardins solarengos da Grande Maçã para ao final da tarde ligarmos o motor do Jeep e partirmos pela estrada fora, ao estilo de Kerouac. 8 horas de viagem para Norte, metade delas passadas em estradas locais, descidas e subidas, curvas, contra-curvas e o pé calcava o travão sem perdão. Sem piedade ou misericórdia pela estrada 9W.
Passávamos por pequenas vilas com duzentas ou cem pessoas, com um Jeep ferrugento e com a matricula de um estado distante, a ouvir música americana: desde o hip-hop de Brooklyn até ao banjo do interior, nada de preocupante, tempos bons com boas pessoas. Isto quando o ponteiro da velocidade ia nos 70 km/h e a partir da escuridão que nos envolviam dispararam as sirenes da policia atrás de nós. Vermelho, azul, luzes brancas. Era para nós? Era para o carro da frente? Atrás do volante eu não sabia o que fazer, o Jordan e o Knut tentavam olhavam pelo vidro de trás se havia algum sinal para pararmos. Será que eles queriam passar ou queriam que parássemos o carro? Virei na primeira saída à direita e eles continuaram na nossa traseira. "Pára o carro! Pára o carro!", gritou o Jordan. Encostei na berma e parei.
Fiquei cego com as luzes atrás de nós, um outro carro cortou-nos o caminho à frente. Mais luzes, mais sirenes. Estava completamente desorientado e sem perceber o que se passava. Naquilo que me parecereu um segundo tinhamos dois polícias com lanternas apontadas para dentro do carro. Abri o vidro.
- Porque é que não parou quando o mandei parar?
- Aaah, eu fiquei completamente desorientado. Eu não sou americano por isso não estou muito dentro das leis locais e daquilo que é suposto fazer.
- Não? E se pensassemos que eram traficantes de droga e disparassemos para os pneus, já sabia que era para parar?
- Aaah... peço desculpa, mas fiquei mesmo desorientado.
- Carta de condução e título do veículo.
Este era um tipo baixo, com longas suiças até ao pescoço e com ar de quem adora aquilo que faz. Entretanto o outro aproximou-se do vidro e não podia ser maior cliché de policia americano: cabelo rapado, sem barba e a falar alto e com o tom de voz autoritário que se vê nos filmes.
- De onde é que és, Albania?
- De onde sou? Portugal.
- Aaah, deves saber falar uma cinco línguas não?
- Quantas línguas sei falar, só 3.
- Bem, são mais duas das que eu sei. Já agora, o que estão três tipos a fazer num carro a caminho do Canadá?
- Uma road-trip até à California.
- Aaah! Ja viste isto, estes querem ir até à California neste pedaço de merda. E vocês de onde são.
O Jordan e o Knut responderam que eram da Inglaterra e da Noruega. O policia careca não perdeu tempo:
- Vejam só, três rapazes de países diferentes a viajar pelo meu país. Num carro que nem deviam ter sido autorizados a comprar. Que caralhada! Em trinta anos de serviço é a primeira vez que isto me acontece. O que é que vou fazer com vocês? Que caralhos que me saíram!
Silêncio, enquanto o que tinha aspecto de italiano verificava os passaportes no carro de trás.
- E tu, andas-te a atirar-te de pára-quedas com o princepizinho?
- Não, nunca fui militar.
- Que bando de maricas, nem para tropa servem...
Esperámos mais quinze minutos e este policia divertia-se a tentar assustar-nos, mas a máscara de ser o policia durão e que nos ia por atrás das grades caíu com a estranheza da situação. Como é que eles nos podiam levar a sério depois de verem três tipos, num Jeep ferrugento que querem ir para a California?
Depois de nos devolverem os passaportes foram simpáticos ao nos ajudar a inverter o sentido e ainda nos indicaram o caminho mais rápido para sair daquele caminho de cabras no meio da montanha.
Depois disto foram mais 5 horas de viagem, pela escuridão completa e total e passamos por talvez 6 carros. Nada, escuridão total e no meio de tudo isto o céu ganha cor e as estrelas indicam o caminho para aquela que irá ser a nossa casa nos próximos sete dias.
Fomos recebidos às 3 da manhã em casa de um couchsurfer e pela primeira vez dez dias tive um colchão só para mim e cobertores para me aquecer durante a noite.
Love,
João

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