Como se celebra o Natal quando se está a viajar?
Esta é uma boa pergunta e este ano pela primeira vez, desde que me lembro, não sinto o espírito natalício.
Não sei o que lhe aconteceu, mas simplesmente não está lá. Ao contrário
daquilo que acontece todos os anos, durante esta viagem não entrei em
contacto com shoppings pingados de decoração e bonecos de neve. Não houve músicas natalícias a entrar nos meus ouvidos a um passo tranquilo e alegre. Não
houve a progressiva adaptação a ruas coloridas de pequenas luzes e neve artificial.
O Natal deste ano caiu do céu sem avisar e não entrou com meias medidas.
No dia 21 de Novembro, estava em Las Vegas, a dormir no The Quad, um dos hóteis da Strip,
e tinha passado o dia a olhar para o ecrã do IPad na esperança de ter algo de interessante para escrever. Voltei a visitar o salão de
alguns casinos, caminhei pela avenida e a meio da tarde cansado e com um pouco de frio regressei ao quarto de
hotel. Estava lá o Jordan a ouvir música africana e a organizar a mala.
Este dia era o aniversário do Jordan e por esse motivo e até para
quebrar a rotina da viagem, em que até a diversão era controlada e com
certas obrigações, decidimos voltar aos locais em que tínhamos passamos alguns
dias no ano anterior.
Sim... No ano anterior, em Outubro de 2012, eu re-encontrei o Jordan em
Las Vegas , para onde tínhamos ido a uma conferência do projecto para que
trabalhamos, e houveram alguns locais da cidade que ficaram
imortalizados na nossa memória. Assim, esse dia tornou-se um
flashback do
passado, em que estávamos de novo os dois em Las Vegas à procura de
diversão e nada mais.
Aborrecidos e a olhar para as paredes do quarto de hotel tentávamo-nos lembrar de que sítios podiamos visitar a esta hora. Centro Comerciais? Aaah, nem por isso... Discotecas? Não estávamos com a energia necessária... O que podiamos então fazer?!
Nisto o Jordan saltou da cadeira e disse que uma ideia engraçada era voltar à casa em que ficamos no ano
anterior. Esfomeados e agora com o entusiasmo a enganar o cansaço, pegamos no Jeep e conduzimos pelas movimentadas e brilhantes avenidas de Las Vegas: viramos na esquina do MGM Grand, seguimos pela Tropicana, passamos o aeroporto e viramos à direita em Paradise, daí voltamos a virar e
entramos na Rodeo Drive. Ali foi conduzir em frente até ao final da rua e
do lado direito da estrada lá estava... Como todas as outras, com um
pequeno jardim de pedra, a garagem para o carro, uma palmeira que se
debruçava sobre o horizonte... Aquela que foi a nossa casa durante uma semana!
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| Rodeo Drive, com o hotel Luxor no horizonte |
Saímos do carro e tocamos à campainha. Apareceu uma mulher negra, com um
robe amarrado à cintura e com as mamas a saltarem do sutiã. Olhei para
dentro da casa e o varão de strip ainda lá estava, mas pela porta saiam
batidas de música electrónica, uma outra rapariga em
lingerie segurava um taco de bilhar e espreitava para a rua e um tipo negro, com um boné de basebol veio
falar connosco a perguntar o que queríamos dali.
Se havia alguma tensão na sua voz, essa desapareceu quando lhe contamos o
propósito da nossa visita: éramos apenas dois tipos europeus a
aproveitar a América do Norte e queriamos saber quem vivia na nosa antiga casa. Talvez fosse pelo sotaque britânico do
Jordan, talvez fosse pelo carácter inesperado das situações ou pelo meu
sorriso, mas a nossa fórmula resultava e deixava sempre as pessoas
relaxadas com a nossa presença. Em dois meses e muitas outras ocasiões nunca nos deixou ficar mal.
Quando chegamos ao carro rimos e rimos muito, porque não era aquilo que
estávamos à espera de encontrar. A
Casa Amorata, - como chamamos ao
local onde quem trabalha no nosso projecto se reúne -, tinha-se
transformado num bordel. Tinha atingido o próximo degrau de evolução!
Estávamos no final da tarde e com a fome a apertar, tendo apenas dois
bolos de arroz na barriga durante o dia, conduzimos até a uma praça
comercial que ficava a um ou duas milhas de distância. Naquela praça, em
que as lojas ladeavam o parque de estacionamento, só havia um sítio
capaz de nos preparar uma refeição digna do aniversário do Jordan: o
restaurante vietnamita que se tinha tornado o nosso local de almoço durante
dias e dias seguidos, ao ponto de as empregadas já nos conhecerem e não
ser preciso pedir a ementa. Este ano nenhuma se lembrava de nós...
E assim, quando entramos no restaurante... Ah? Como é que isto é possível? Qual é o sentido disto?
Luzes de Natal? Pinheiros em cima de cada mesa, guardanapos com bonecos
de neve desenhados e bolas decorativas penduradas no tecto e nas
colunas?!
Espera... Em que dia é que estamos?
Naquele momento nada fez sentido. Olhamos um para o outro sem reacção e
tentamos descortinar o significado de tudo aquilo e a situação piorou.
Piorou ao ponto de haver músicas de Mariah Carrey, Celine Dion e tantos
outros que apenas saiem do seu armário de traças e teias de aranha na
altura do Natal.
Ali deparamo-nos com o Natal. Estávamos "naquela" altura do ano e não havia nada a fazer.
Porque é que isto aconteceu? A razão é que como fui dizendo, quando se
viaja não existem dias da semana: tem pouca importância se hoje é
segunda ou quinta-feira. Quando se está na estrada a relevância de ser
dia 10 de Dezembro ou 18, é apenas importante para se contar os dias até
ao próximo workshop.
"Já faltam 3 dias? Então temos que começar a ver
os sítios onde ir, começar a enviar emails, fazer o plano de..."
E assim, duas semanas e meia depois de estarmos em Miami tínhamos
entrado na quadra natalícia sem querer. Nunca foi o nosso objectivo. Por
essa mesma razão, e apesar do frio que agora sinto, não existe grande
espírito de Natal em mim. Pergunto-me se os dois que estão no México o
sentem, com o calor tropical e com os sons da selva e se o Cory, no
Canadá também se sente nesta posição distante em relação ao Pai Natal.
O que mais há a dizer para além de aproveitar o Natal?
Assim quero desejar a todos os leitores deste blog um...
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| Pub Crawl em Santa Mónica. À minha direita na foto: o Ryan e o Jesse! |
FELIZ NATAL!