sexta-feira, 30 de maio de 2014

Alguém Se Lembra da Albânia?

Há poucos lugares no mundo como a Albânia. Quando aqui chegas as pessoas perguntam-te o porquê de estares neste pedaço de terra esquecida pelo mundo e quando caminhas na rua olham para ti, como se fosses uma espécie de ser extra-terrestre, ou então alguém muito importante. Não, viajantes e turistas não são comuns neste país.



Fechada ao resto do mundo durante quarenta anos, com uma ditadura que se batia ombro-a-ombro com o regime da Coreia do Norte, a Albânia abre-se agora ao mundo e para um viajante que não esteja agarrado a uma ideia do Ocidente, consegue ser um país surpreendente. Principalmente a capital, Tirana...

Localizada no centro do território, com uma população que engole 1/3 do país, é uma das cidades mais vibrantes e rápidas que já conheci.  Dividida claramente entre o novo e o antigo, entre o moderno e o que contínua esquecido e reminescente da ditadura, provoca um contraste imenso e que choca o sistema de qualquer um que aqui chega. A diferença começa nas ruas limpas e polidas que partem da principal praça da cidade, até ao Museu da História Nacional e da grande avenida que a liga à Universidade Madre Teresa, com arranha céus de multinacionais. Todo este modernismo termina nos subúrbios que muitas vezes, estão a poucas dezenas de metros do centro: edifícios inacabados, ruas sujas, homens a beber cerveja nos passeios, fios de electricidade a cortar o ar, por onde devia de passar a tua cabeça, e um trânsito caótico, que torna esta cidade uma das mais confusas e perigosas para se atravessar uma rua.



Apesar de tudo isto, que pode afastar alguns visitantes, Tirana é uma surpresa agradável para qualquer viajante que não traga expectativas agarradas à mochila.  Contudo, não é para os mais fracos de coração ou para os facilmente impressionáveis. Sabemos que estamos num lugar "estranho" quando se há crianças a vender cachorros recém-nascidos na beira da estrada, uma avenida que se estende por quilómetros ladeada por lojas de mobiliário, quando as tampas de saneamento são roubadas, quando há burros na estrada e as casas, nas aldeias, têm cilindros de água no telhado pois não há água canalizada.  Ah, sem esquecer que a maioria destas casas não têm telhado... E o que dizer da ovelha, que vi no primeiro andar de uma casa inacabada, a olhar para estrada ou de uma vaca que pastava no terreno de uma mesquita?

É assim a Albânia... e mesmo assim gosto deste país.


domingo, 25 de maio de 2014

No Convés de um Ferry Boat

Bari, Itália 
23 de Maio, 2014






São 9 da noite de sexta-feira e estou num navio que me irá levar pelo Adriático até à costa montenegrina. Esta viagem começou às 11 da manhã de hoje e pressinto que só vai terminar depois do meio-dia de amanhã. 

Não é a primeira, mas já começo a fazer hábito destas viagens de 24 horas, com mudanças de transporte e longas horas de espera pelo meio. Cheguei a Bari, uma das maiores cidades da costa oriental de Itália, perto das 5 da tarde e como podem perceber ainda faltam duas horas até o navio partir. Entretanto escrevo no convés e bebo cerveja dos balcãs a preços inflacionados.

Não sei para onde vou depois de Montenegro: talvez Albânia, talvez Macedónia, tudo depende das possibilidades das viagens e de quantos dias me perco por Podgorica, Budvar e Kotor. 

Aqui em Bari há uma atmosfera engraçada, em que as pessoas falam alto, passam tardes sentadas a apanhar sol enquanto a máfia albanesa circula nos seus carros de alta cilindrada, ou andam de um lado para o outro, à frente do porto, a tratar dos seus negócios.

Para trás ficou a costa amalfitana, Salerno e Nápoles. Agora os camiões iniciam a sua vagarosa marcha para dentro do navio, enquanto a sala de dormidas se encontra repletas de camponeses de Montenegro, Kosovo e Roménia. É um público estranho, que ri de piadas que não compreendo e em que os homens se beijam três vezes na cara.

O dia foi passado a comer biscoitos de champagne e uma garrafa de água, nutritivo e saudável, com muitas horas de leitura em cima e mais algumas de escrita que me deixam exausto e com a única certeza que a oportunidade que tenho para dormir é sentado, numa cadeira, numa sala cheia de pessoas que também deixam o “ocidente” e entram no mundo dos Balcãs. 

Pela estrada mais longa...

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O Top das 5 Piores Cidades da Road Trip

No inicio do ano fiz aqui o top das 5 melhores cidades, por que passamos durante a RoadTrip, contudo para cada lado positivo, tem que se encontrar o balanço, com o lado negativo. E claro, nem todas as cidades porque passamos eram incríveis e nos faziam vontade de lá ficar durante mais umas semanas, ou até mesmo mais uns dias. Algumas cidades tinham um efeito tão repelente, que nem mais um dia me davam vontade de lá passar. Houve tudo para todos os gostos.

Aqui fica então o top 5 das piores cidades da RoadTrip, sendo a primeira a pior cidade pela qual passamos, na minha modesta opinião.


#5 São Francisco, Califórnia

Uma das ruas típicas de San Francisco

A cidade New Age, capital dos pensadores liberais e dos que pensam fora da caixa. Dos hipsters, da comunidade gay, dos hippies, das start-up e vizinha do mundialmente famoso Silicon Valley. Cidade com o metro quadrado mais caro do continente, ruas a subir e a descer, casas de todas as cores, Alcatraz e a ponte Golden Gate. Esta é uma cidade diferente, uma cidade que se distingue do resto pela maneira liberal dos seus cidadãos pensarem e levarem o dia-a-dia. Amiga dos cães e de espaços verdes.

Se São Francisco tem tudo isto, se é uma cidade cheia de turismo, porque é que figura nesta lista?

Porque o outro lado da medalha é demasiado visível: é a cidade com o maior número de sem-abrigos que já vi, há um constante sentimento de insegurança quando se caminha pelas ruas e todo esse pensamento revolucionário, neste caso, acabou por dividir mais as comunidades do que aproxima-las. Toda a gente pensa de forma diferente, que acaba por pensar da mesma forma.

Pode ser uma diferença cultura, mas para mim é estranho passar no centro da cidade e haverem ruas proibitivas de se passar, ou quarteirões inteiros como o Tenderloin infestados de tráfico de droga e criminalidade. Sim, no coração da cidade e do outro lado do distrito financeiro.

E o que dizer de Oakland, do outro lado da baía? Ao passar de carro por lá à noite senti que nos iam balear o carro a qualquer momento. Uma tensão fora do comum no ar, própria de uma zona de guerra, não de uma zona suburbana.

Só a beleza da cidade é que a salva de não estar num lugar mais acima.


#4 Montreal, Canadá

O lado positivo de Montreal que não conheci

Talvez este seja um lugar injusto, se calhar Montreal merece estar fora desta lista. Mas quando a visitamos, nada correm bem e depois ainda houve mais algumas coisas que correram mal. Resumindo, para nós não houve absolutamente nada de positivo nesta cidade.

Saímos de Nova York e estava Verão, todos nos tínhamos apaixonado e de um dia para o outro, estávamos com temperaturas quase abaixo de zero e dormíamos na sala de um tipo de cinquenta anos, partilhada com mais 7 pessoas.

Depois não havia pessoas na rua, demasiado frio. Depois escurecia às 4 da tarde. Depois recebemos três multas de estacionamento, - ainda hoje por pagar. Depois não havia noite ou raparigas. Depois a gasolina era cara.

A única coisa positiva de Montreal foi a comunidade portuguesa que me permitiu beber um café a sério e comer frango de churrasco, com um pastel de Belém para finalizar a refeição. Depois disso, não conseguia aguentar até chegarmos a Toronto.

Éramos para ter ficado sete dias em Montreal, acabamos por ficar 3 e durante o resto da viagem uma das nossas piadas preferidas era dizer: "Fuck Canada!"

Conseguem perceber porquê...

Acredito no que outras pessoas, que conhecem Montreal no Verão me dizem: uma das melhores cidades do mundo. A sério que acredito. Mas não quando lá estive, nem de perto.


#3 Nova Orleães, Louisiana

A praça histórica da Nova Orleães, no coração do bairro francês

Furacão Katrina. Uma lâmina que deixou uma cicatriz permanente na cara desta cidade. Bairros inteiros abandonados, ruas que não foram arranjadas e que só carros todo-o-terreno é que conseguem circular e depois uma pobreza aflitiva nas ruas. Aqui não era o número de sem-abrigos, mas sim a evidência de que a maioria da população era pobre, pobre de uma forma radical para um europeu.

Senti que os habitantes de Nova Orleães foram esquecidos pela Casa Branca, senti que depois do furacão mais ninguém se interessou pela cidade, por criar empregos, por arranjar as escolas, por dar um futuro às pessoas que perderam tudo.

Nova Orleães perde por isso, porque tem um centro fora do comum. Em que se tivesse aterrado lá, sem saber de onde era, diria que estava na Europa. O Bairro Francês é o exemplo mais perfeito disso. O bar mais antigo da América é uma pérola negra que fica por visitar por tantos turistas que por lá passam. A cena jazz e blues não tem par em todo o mundo e contudo... A pobreza das pessoas é mais visível que tudo o resto que as margens do Mississipi possam ter para oferecer.

Como se a pobreza não fosse o suficiente, houve mais um elemento que para mim deitou todas as esperanças de Nova Orleães fugir a este lugar: quando lá estivemos todos nós nos sentimos doentes e quase que demos por terminada a RoadTrip. Só tive uma crise de ansiedade na minha vida e foi exactamente nesta cidade. Se te contasse os planos que tínhamos quando saímos de N.O. provavelmente não acreditavas. Obra de alguma feitiçaria voodoo?!



#2 Nashville, Tennessee

Um dos vários bares de Nashville

Há algo que não gostei e continuo a não gostar em algumas cidades americanas: arranha-céus no meio do nada. Pérolas de luz no meio da escuridão. Grandes centros que aglomeram tudo à sua volta. Nashville para mim tem uma descrição: pobreza, droga e esperança.

Esperança que alguém repare em ti enquanto tocas na rua, esperança que o teu disco seja editado, esperança de que esta seja a primeira vez que consomes droga pesada, esperança de um dia sair da rua, esperança...

Nashville é a capital do rock n'roll americano. Com isso vêm muitos sonhos perdidos. Vem uma pobreza no centro da cidade estranha,  que contrasta profundamente com as grandes vivendas nos arredores. Lados da mesma moeda.


#1 Atlanta, Georgia

Por baixo de uma das várias auto-estradas que cruzavam o centro da cidade

Há algo de profundamente errado com Atlanta, no coração da costa Leste, a grande cidade do interior ergue-se em enormes arranha-céus e auto-estradas que cruzam o centro da cidade. Ao par das maiores cidades europeias, Atlanta é uma super-cidade que aparece no meio do nada e que se vê como um pólo aglutinador de todas as outras cidades naquele estado e nos vizinhos.

Contudo, há uma energia estranha no ar. Numa cidade em que todos querem ser gangsters, em que é normal gabarem-se de como já foram presos ou têm dez armas em casa, ou se repara nas casas antigas e mal-arranjadas percebe-se que esta cidade foi assaltada por uma pobreza que a destruiu aos bocados. A cultura rap e gangster não ajuda e pessoas com trabalhos respeitáveis falam como se a sua vida fosse um vídeo do 50 Cent. Não há nada de real na cidade, não havia qualquer ligação entre as pessoas e para além do museu da Coca-Cola e da cena Jazz, não existem quaisquer razões para se passar por lá.

Aquilo que decide para mim este primeiro lugar foi o facto de estar no jardim da casa de uns recém conhecidos e de repente ouvirem-se dois estouros no ar. Perguntei-lhes o que era aquilo e eles, com a cara mais normal do mundo, habituados a esses barulhos e sirenes da policia dizem: "São tiroteios, é normal aqui em Atlanta."

Não para mim, obrigada.