sábado, 26 de outubro de 2013

O Frio Norte

Toronto, Canadá

O frio chegou, tal como Ned Stark na série "Game of Thrones" dizia: "O Inverno está a chegar!" e as baixas temperaturas, o frio cortante do norte e a chuva encontraram-nos assim que chegamos a Montreal. 

Montreal... o que se pode pensar de uma cidade com ascendência francesa no Canadá? Limpa, arquitectura perfeita e organizada... Completamente errado! Montreal é tudo aquilo que eu imaginei, mas ao contrário. Essa imagem de perfeição que eu tinha foi arruinada logo no primeiro dia em que caminhei pelas ruas vazias da cidade: não havia pessoas na rua, os subúrbios estavam a dez metros do centro da cidade e qual era a razão para tanto espaço vazio, esfaltado e coberto com ervas daninhas? Para além disso, Montreal é uma cidade cinzenta: os edificios são cinzentos, o tempo é escuro e não há uma beleza estética nas pessoas, nas ruas ou na imaginação.

Eu não gostei de Montreal, no segundo dia sabia que queria sair de lá e se Nova York foi o ponto alto de toda a viagem, a maior cidade do Quebec mostrou-se como o ponto mais baixo: precisava de tempo sozinho para mim e este é dificil de encontrar quando se está numa casa com 9 pessoas, quando se tem ao lado colegas de trabalho, com posições determinadas sobre a vida, sobre o ritmo da viagem. Há fricção no ar, há faíscas e infantilidades evitáveis e por vezes há vontade de atirar um soco no ar, só para ver se acerta em alguém...

Quando se está longe de casa, sente-se falta de tudo e de nada, queremos o conhecido e ao mesmo tempo agradecemos pelo desconforto em que se vive, - pelo simples facto de ser um sinal de evolução pessoal e de conhecer-me a novas profundidas. Mas desengana-se quem pense que viajar é fácil e se sozinho é complicado, com amigos a complexidade multiplica-se. Viajar é mais do que encostarmo-nos ao sofá e desfolhar as páginas brancas, imaculadas e com cheiro a novo de um livro... Viajar é um livro de páginas amarelas, com a textura áspera e gasta dos anos, com cheiro a bolar e as páginas dobrada. O romantismo que os livros nos trazem, falham sempre em dar ao leitor a sensação que não há nada de romântico de conduzir durante oito horas com dois tipos no banco de trás a falar espanhol, porque um deles quer aprender e tu pedes a todos os deuses, às trindades, santos e almas para se calarem, por favor... por favor!

Viajar pode assumir a forma de dias aborrecidos, sentado em cafés, com a chuva a bater nos vidros e temperaturas glaciares a enregelarem os ossos e perguntarmo-nos: "O que estou eu aqui a fazer?" Mas se não estivesse aqui onde estaria? E depois de pausarmos uns minutos percebemos que estamos aqui porque isto é tudo aquilo que sempre quisermos, que estas são as melhores memorias que o dinheiro e o tempo podem oferecer, por mais desconfortavel que se possa estar, as melhores memórias são as que são passadas longe de tudo aquilo que tem significado para nós.

E como um dia Mark Jenkins disse: "A aventura é um caminho. A aventura verdadeira - auto-motivada, auto-determinada, por vezes arriscada, irá fazer-te ter encontros em primeiro grau com o mundo. O mundo da maneira que é, não como um dia imaginas-te. O teu corpo irá colidir contra a terra e tu serás a grande testemunha. Desta maneira tu irás ser confrontado com as maiores bondades que existem na humanidade e também com a derradeira maldade - e perceberes que na verdade tu és capaz de ambos. Isto irá mudar-te. Nada voltará a ser a preto e branco."

Love,
João

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