segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Apelo à Insanidade

Downtow de Austin, Texas

Talvez tenha começado este blog pela maneira errada... Nunca houve uma introdução ao que estamos a fazer, ou com quem estou a viajar. É provavel que seja um melhor escritor do que um bom anfitrião. Sim, é possivel. 

Para aqueles que pensam que isto é apenas uma viagem, então desenganem-se, isto é uma via rápida para a insanidade, é um reality show sem câmaras, uma experiência social e um desasjustamento permanente à realidade. Qual realidade?

Na última noite em Nova Orleães caíu-me a ficha, - como uma amiga minha diz -, e apercebi-me da loucura que esta viagem é. Apercebi-me do quão primitiva estão a ser estas semanas e a sanidade mental de todo o grupo já teve melhores dias. É verdade, podem não acreditar mas houveram experiências sociais menos chocantes que isto. 

Neste momento podem estar a pensar que me estou a queixar sem razão... Sim, também é provável. Sim, também sou um sortudo por estar onde estou, a fazer aquilo que quero e a viver o sonho. Mas em vez de escrever sobre as maravilhas desta viagem e deixar-vos com inveja, prefiro fazer o papel de vítima e deixar-vos mais felizes com a vossa vida...

Nesse última dia em Nova Orleães acordei a saber que os nossos hóspedes não nos queriam hospedar por mais uma noite, para além disso não havia água em casa. Sentimentalismos com os sofás e colchão de ar, presumo. Para piorar ligeiramente o meu humor matinal, o Cory, - o tipo que está a dormir no vídeo do carro e que tem 2.10m - adora adormecer com a ventoínha no máximo, o que me faz acordar às 8 da manhã com arrepios no pescoço.

Nesse dia apetecia-me destruír algo e em instantes de insanidade, refugiado no parque de estacionamento do café a andar de um lado para o outro, percebi que isto um caminho rápido para as profundezas da insanidade e que deixei de ser um ser humano normal. Na verdade, nenhum de nós é.

Somos 4 tipos que fazemos tudo juntos, todas as decisões são tomadas em conjunto e não falamos de mais nada para além de marketing, vendas, negócios, com um pouco de espaço para falar de sedução e mulheres. Em mais de 1 mês, falamos 5 minutos sobre futebol e desporto.

Não sabemos onde vamos dormir a seguir e muito menos se o carro irá chegar ao próximo destino. Aceitamos os convites que são postos no nosso caminho e mesmo que não seja a nossa vontade, não há muito que se possa fazer: afinal precisamos mais dos nossos anfitriões do que eles de nós.

Quanto aos meus pequenos luxos: dormir no chão tornou-se confortável e preferivel a colchões de ar, os sofás são iguais a camas, e camas são... Não tenho bem a certeza do que é uma cama. Também não me lembro de acordar um dia depois das 10 da manhã ou secar-me numa toalha que cheire a lavado. ( Nunca comprem uma toalha de microfibras e a mantenham por mais de 3 meses)

Não me recordo do último filme que vi e não foi neste lado do Atlântico, de certeza. Por outro lado não consigo contar as horas de podcasts sobre vendas que o Knut põe a dar nas viagens de carro. - O Knut é o tipo norueguês que está no banco da frente, no vídeo. - Neste momento ressaco por ver um jogo de qualquer desporto, basebol é aceitável e Formula 1, de repente, é fascinante... Não tenho telémovel comigo e na verdade não sinto a falta, fazendo-me interrogar o porquê de sermos tão fascinados com esses rectângulos luminosos. Não tenho computador e não vejo televisão. Sinto falta do primeiro, não me lembro do que é o segundo.

Essa noite foi também a primeira que não saí e fiquei por "casa", que neste caso era um hostel com os hóspedes mais calados que já vi. Tudo porque não me lembrava da última vez que estive completamente sozinho e o tudo no meu corpo se estava a revoltar contra isso.

Quanto a luxos, um banho na manhã de 10 minutos é um luxo principalmente se a água não for morna, mas quente. Mas aí corro o risco de pagar o pequeno-almoço ao resto do pessoal. Sim, porque neste reality show também há desafios: se chegares um minuto atrasado à mesa pagas o pequeno-almoço ao resto do grupo.

Todos caminhamos para o mesmo precipicio e todos temos noção disso. Não quando estamos fechados no carro durante 16 horas seguidas, mas quando interagimos com alguém do mundo exterior e as piadas trocadas entre nós, não fazem qualquer sentido para as outras pessoas. Ficam a olhar para nós, como se estivessemos a falar uma língua diferente e incompreensivel. 

Mais assustador que isso são essas pessoas do mundo exterior repararem que falamos todos da mesma forma, os sotaques de inglês começam a fundir-se num só e há expressões que apenas são proferidas por nós os quatro. 

Mas sim, não me vou queixar mais... Querem saber a melhor parte de viajar? A melhor parte são as pessoas que conhecemos por cinco segundos ou dois dias, que nos tratam como se fossem nossas amigas desde há muitos anos atrás. São os conhecidos que encontramos pela estrada, jantamos com eles e a generosidade que têm em pagar pelo nosso jantar, ou qualquer outra coisa, faz-nos ficar humildemente calados e a olhar uns para os outros. 

Pequenas interacções e encontros casuais, mudanças de plano e fazer festas a um gato chamado Taj Mahal no hostel de Nova Orleães. Nesse momento sente-se saudades de casa, do conhecido, da segurança, de conforto, de conversas normais e fazer actividades normais. Mas depois, chega-se à conclusão que não há melhor sítio para se estar, que a segurança de casa é um mito... Quando se olha para trás no calendário e um mês e uma semana são o equivalente a seis meses, sabe-se que o propósito desta insanidade é o mais correcto. 

Os momentos de contacto imediato com a humanidade, com a bondade infinita do universo faz-me olhar para trás e para todas as pessoas que deram mais do que era sua obrigação. Esses momentos são dificeis de encontrar quando não se viaja, são esses momentos que mudam a maneira como se pensa e se vê mundo e nos sentimos em contacto com a bondade e o amor que existe no mundo.



Love,
João

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