segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma estrela rock em Toronto

Baixa de Toronto, Canadá

Hoje é o dia de Outono que sempre se sonha ter: as árvores perdem as folhas, as pessoas caminham pelas ruas, o sol brilha no céu e está calor. O contraste com o frio de Montreal, escrito no último texto, é mais que bem vindo e espero que a partir de agora não tenha que voltar a vestir três peças de roupa para não ter tremores de frio pelo corpo.

Aqui não se dorme, não se descança e não há tempo para lamúrias. Estamos os quatro a viver como baratas: comemos a comida mais barata, passamos as noites no chão e temos que ter a energia para fazer aquilo que tem que ser feito: escrever, contactos para os eventos, coçar a cabeça a tentar perceber como é que vamos arranjar um sítio para ficar na próxima cidade e agora arranjar o Jeep, que se avariou mal chegamos a Toronto. E no meio disto tudo, há que sair à noite, fazer quem nos hospeda fique contente connosco, comprar comida, cozinhar e cumprir metas e objectivos pessoais. Aqui vivesse acima do limite de velocidade e há dias em que há acidentes a alta velocidade, enquanto noutros dias tudo fluiu num ritmo natural.

Sinto-me cada vez mais como um membro de uma banda rock em digressão. Não há energia ou tempo para andar a visitar a cidade e as relações com as pessoas há nossa volta são tudo menos arco-iris e flores. É, nós somos uma banda rock na estrada e há dias em que queremos tudo menos actuar, mas o que se pode fazer?

A verdade é que a reacção das pessoas quando digo aquilo que faço é como abrir uma mala cheia de notas de 100 e deixar espreitar. Há quem queira tirar fotografias, querem saber a opinião sobre este tema em particular e o como é andar a viajar e não ter mais do que uma mala de viagem e algumas raparigas fazem questão de apresentar as amigas. Não é esta a essência de ser uma estrela de rock?!

E contudo, quando se vive este estilo de vida, não se adormece a pensar na casa que sempre conhecemos como o nosso lar, ou com os amigos, raparigas ou o cão que sente mais a nossa falta, que nós a dele... Quando se está na estrada e nos deitamos somos engolidos para o grande vazio da escuridão, não há nada lá. 

Mas falemos de Toronto...

Toronto é ao mesmo tempo Portugal e a cidade mais multi-cultural em que já estive, - sim mais que Nova York! Porque é Portugal? A razão é simples: ontem caminhei durante uma hora e meia para assistir ao jogo do Sporting contra o Porto, aqui há uma só realidade, o Sporting é rei em Toronto. Éramos mais de 300 adeptos e apesar de estarmos a perder, as conversas, a cerveja portuguesa, o Sumol de laranja e a tentativa de adivinhar o sotaque da pessoa com quem falava era mais importante que o resultado do jogo em si. E aqui, deste lado, a tantos quilómetros de distância não me interessava o resultado, porque quando marcamos o golo do empate foi como se tivessem aberto a jaula ao leão que vive em mim: de braços no ar gritei até me doer a garganta, naquele momento eu era uma bancada inteira, um éxercito de cem mil homens preparados para arrasar cidades. Há poucas coisas que me fazem sentir assim e aqueles segundos de descontrolo total valeram por tudo...

E porque é Toronto uma cidade multi-cultural? Para começar 55% da população não é etnicamente canadiana: chineses, coreanos, paquistaneses, indianos, libaneses, italianos, toda a América do Sul e as Caraíbas e russos fazem parte desta cidade da mesma forma que eu faço nestes dias. É um choque para mim e um estimulo total para o cérebro quando caminho pelas ruas. Como pode ser possivel tomar o pequeno almoço num café de Tawain, almoçar uma refeição das Caraíbas, na rua ouvir "O Meu Amor de Verão!" e juntar-me com os amigos que aqui estão ao final da tarde num bar etíope?

Love,
João


sábado, 26 de outubro de 2013

O Frio Norte

Toronto, Canadá

O frio chegou, tal como Ned Stark na série "Game of Thrones" dizia: "O Inverno está a chegar!" e as baixas temperaturas, o frio cortante do norte e a chuva encontraram-nos assim que chegamos a Montreal. 

Montreal... o que se pode pensar de uma cidade com ascendência francesa no Canadá? Limpa, arquitectura perfeita e organizada... Completamente errado! Montreal é tudo aquilo que eu imaginei, mas ao contrário. Essa imagem de perfeição que eu tinha foi arruinada logo no primeiro dia em que caminhei pelas ruas vazias da cidade: não havia pessoas na rua, os subúrbios estavam a dez metros do centro da cidade e qual era a razão para tanto espaço vazio, esfaltado e coberto com ervas daninhas? Para além disso, Montreal é uma cidade cinzenta: os edificios são cinzentos, o tempo é escuro e não há uma beleza estética nas pessoas, nas ruas ou na imaginação.

Eu não gostei de Montreal, no segundo dia sabia que queria sair de lá e se Nova York foi o ponto alto de toda a viagem, a maior cidade do Quebec mostrou-se como o ponto mais baixo: precisava de tempo sozinho para mim e este é dificil de encontrar quando se está numa casa com 9 pessoas, quando se tem ao lado colegas de trabalho, com posições determinadas sobre a vida, sobre o ritmo da viagem. Há fricção no ar, há faíscas e infantilidades evitáveis e por vezes há vontade de atirar um soco no ar, só para ver se acerta em alguém...

Quando se está longe de casa, sente-se falta de tudo e de nada, queremos o conhecido e ao mesmo tempo agradecemos pelo desconforto em que se vive, - pelo simples facto de ser um sinal de evolução pessoal e de conhecer-me a novas profundidas. Mas desengana-se quem pense que viajar é fácil e se sozinho é complicado, com amigos a complexidade multiplica-se. Viajar é mais do que encostarmo-nos ao sofá e desfolhar as páginas brancas, imaculadas e com cheiro a novo de um livro... Viajar é um livro de páginas amarelas, com a textura áspera e gasta dos anos, com cheiro a bolar e as páginas dobrada. O romantismo que os livros nos trazem, falham sempre em dar ao leitor a sensação que não há nada de romântico de conduzir durante oito horas com dois tipos no banco de trás a falar espanhol, porque um deles quer aprender e tu pedes a todos os deuses, às trindades, santos e almas para se calarem, por favor... por favor!

Viajar pode assumir a forma de dias aborrecidos, sentado em cafés, com a chuva a bater nos vidros e temperaturas glaciares a enregelarem os ossos e perguntarmo-nos: "O que estou eu aqui a fazer?" Mas se não estivesse aqui onde estaria? E depois de pausarmos uns minutos percebemos que estamos aqui porque isto é tudo aquilo que sempre quisermos, que estas são as melhores memorias que o dinheiro e o tempo podem oferecer, por mais desconfortavel que se possa estar, as melhores memórias são as que são passadas longe de tudo aquilo que tem significado para nós.

E como um dia Mark Jenkins disse: "A aventura é um caminho. A aventura verdadeira - auto-motivada, auto-determinada, por vezes arriscada, irá fazer-te ter encontros em primeiro grau com o mundo. O mundo da maneira que é, não como um dia imaginas-te. O teu corpo irá colidir contra a terra e tu serás a grande testemunha. Desta maneira tu irás ser confrontado com as maiores bondades que existem na humanidade e também com a derradeira maldade - e perceberes que na verdade tu és capaz de ambos. Isto irá mudar-te. Nada voltará a ser a preto e branco."

Love,
João

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A Noite em que fomos parados pela Policia Estatal

Montreal, Canada

Estar no Café Noir, na Cidade Velha, de Montreal só posso olhar com um brilho nos olhos para os últimos dias passados em Nova York. Por muito cliché que seja esta cidade é a capital do mundo, onde se podem encontrar todas as nacionalidades e se pode ouvir um sem fim de línguas a serem faladas pelas mais diferentes etnias. 

A última noite em Nova York foi passada em Times Square, com o clarão dos ecrãs gigantes a fazer-me cerrar os olhos enquanto comia o último cachorro quente de uma banca operada por um tipo da Serra Leoa. Sozinho, com um sorriso na cara e com o coração cheio de memórias e felicidade sabia que não trocava aquele momento por nada neste mundo. Há coisas que não podemos substituir, as memórias são uma delas: não nas podem tirar e não se repetem, cada momento é absolutamente único e quem leu Kundera sabe que a maravilha da vida vem nos momentos mais repetitivos tal como nos momentos que nos fazem contemplar cada segundo e querer absorver todos os segundos.

Os encontros mais aleatórios acontecem sem estarmos à espera deles, pessoas que saiem das nossas vidas à mesma velocidade com que entraram: rápida e furiosamente. Não há tempo para complacência porque quando se vive na estrada os ponteiros do relógio não param e queremos tudo aqui e agora.

O dia de ontem, segunda-feira, foi passado em jardins solarengos da Grande Maçã para ao final da tarde ligarmos o motor do Jeep e partirmos pela estrada fora, ao estilo de Kerouac. 8 horas de viagem  para Norte, metade delas passadas em estradas locais, descidas e subidas, curvas, contra-curvas e o pé calcava o travão sem perdão. Sem piedade ou misericórdia pela estrada 9W. 

Passávamos por pequenas vilas com duzentas ou cem pessoas, com um Jeep ferrugento e com a matricula de um estado distante, a ouvir música americana: desde o hip-hop de Brooklyn até ao banjo do interior, nada de preocupante, tempos bons com boas pessoas. Isto quando o ponteiro da velocidade ia nos 70 km/h e a partir da escuridão que nos envolviam dispararam as sirenes da policia atrás de nós. Vermelho, azul, luzes brancas. Era para nós? Era para o carro da frente? Atrás do volante eu não sabia o que fazer, o Jordan e o Knut tentavam olhavam pelo vidro de trás se havia algum sinal para pararmos. Será que eles queriam passar ou queriam que parássemos o carro? Virei na primeira saída à direita e eles continuaram na nossa traseira. "Pára o carro! Pára o carro!", gritou o Jordan. Encostei na berma e parei.

Fiquei cego com as luzes atrás de nós, um outro carro cortou-nos o caminho à frente. Mais luzes, mais sirenes. Estava completamente desorientado e sem perceber o que se passava. Naquilo que me parecereu um segundo tinhamos dois polícias com lanternas apontadas para dentro do carro. Abri o vidro. 
- Porque é que não parou quando o mandei parar?
- Aaah, eu fiquei completamente desorientado. Eu não sou americano por isso não estou muito dentro das leis locais e daquilo que é suposto fazer.
- Não? E se pensassemos que eram traficantes de droga e disparassemos para os pneus, já sabia que era para parar?
- Aaah... peço desculpa, mas fiquei mesmo desorientado.
- Carta de condução e título do veículo.
Este era um tipo baixo, com longas suiças até ao pescoço e com ar de quem adora aquilo que faz. Entretanto o outro aproximou-se do vidro e não podia ser maior cliché de policia americano: cabelo rapado, sem barba e a falar alto e com o tom de voz autoritário que se vê nos filmes.
- De onde é que és, Albania?
- De onde sou? Portugal.
- Aaah, deves saber falar uma cinco línguas não?
- Quantas línguas sei falar, só 3.
- Bem, são mais duas das que eu sei. Já agora, o que estão três tipos a fazer num carro a caminho do Canadá?
- Uma road-trip até à California. 
- Aaah! Ja viste isto, estes querem ir até à California neste pedaço de merda. E vocês de onde são.
O Jordan e o Knut responderam que eram da Inglaterra e da Noruega. O policia careca não perdeu tempo:
- Vejam só, três rapazes de países diferentes a viajar pelo meu país. Num carro que nem deviam ter sido autorizados a comprar. Que caralhada! Em trinta anos de serviço é a primeira vez que isto me acontece. O que é que vou fazer com vocês? Que caralhos que me saíram!
Silêncio, enquanto o que tinha aspecto de italiano verificava os passaportes no carro de trás. 
- E tu, andas-te a atirar-te de pára-quedas com o princepizinho?
- Não, nunca fui militar.
- Que bando de maricas, nem para tropa servem...

Esperámos mais quinze minutos e este policia divertia-se a tentar assustar-nos, mas a máscara de ser o policia durão e que nos ia por atrás das grades caíu com a estranheza da situação. Como é que eles nos podiam levar a sério depois de verem três tipos, num Jeep ferrugento que querem ir para a California? 

Depois de nos devolverem os passaportes foram simpáticos ao nos ajudar a inverter o sentido e ainda nos indicaram o caminho mais rápido para sair daquele caminho de cabras no meio da montanha.

Depois disto foram mais 5 horas de viagem, pela escuridão completa e total e passamos por talvez 6 carros. Nada, escuridão total e no meio de tudo isto o céu ganha cor e as estrelas indicam o caminho para aquela que irá ser a nossa casa nos próximos sete dias.

Fomos recebidos às 3 da manhã em casa de um couchsurfer e pela primeira vez dez dias tive um colchão só para mim e cobertores para me aquecer durante a noite.

Love,
João




quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Manhattan Skyline

Manhattan, Nova York
West Village

Nova York é um mundo diferente, quem aqui vive não está em contacto com mais nada para além das agulhas dos arranha-céus ou das casas de tijolo vermelho. Para quê? Só o centro é do tamanho de uma média cidade europeia. 

Manhattan em si tem uma certa espécie de beleza funcional, em que é preciso treinar o olho para ver pedaços de beleza nas coisas mais comuns e dentro do ordinário desta galáxia. Este é o centro do centro do mundo, o ritmo de vida é frenético, os carros deslizam pelo aslfato com toda a velocidade que lhes é permitida e as carruagens de metro são como conservas de peixe. Contudo, é uma cidade surpreendentemente silênciosa, não há aquele ruído de fundo que parece engolir tudo num vortex de confusão e caos. 

Upper East Side, East Village, Midtown, Chelsea. Cidades dentro de um universo. A maior maneira de viver aqui é manter o ritmo de vida das nossas cidades europeias no meio de todo o stress que o dinheiro pressiona. 2 mil dolares por mês é o minimo necessário para alugar um buraco com 10m quadrados nesta parte da cidade, essa é a causa de toda a correria, porque aqui tempo é dinheiro e é dificil escapar a essa roda frenética de trabalhar para viver.

O que me surpreende é a quantidade mulheres absolutamente fenomenais nesta cidade, é algo ridiculo e que não deveria de existir! Agora compreendo o desespero das mulheres naquelas séries, como o Sexo e a Cidade, que não conseguem encontrar um homem com quem casar ou passar algum tempo. Há mais mulheres que homens, e estes estão mais ocupados em fazer dinheiro. 

Neste momento faz uma semana e meia desde que aterrei em Boston com o Jordan e começa-se a sentir a necessidade de espaço, mas é claro... não há espaço! Como nenhum de nós tem um emprego das nove às cinco, é sempre uma melhor opção ficar onde as portas estão abertas: seja isso uma casa com quatro quartos ou, neste caso, ter que partilhar um colchão de espuma que faz o milagre de não conseguir mover qualquer parte abaixo do pescoço por dez minutos depois de se acordar.

Como se encontra este espaço? Muitas vezes é na solidão de um café cheio de gente, música mexicana como plano de fundo e submergir na escrita, nas teclas que fazem o papel de tinta espalhada num caos ordenado numa folha de papel branco. Ou então em longos passeios durante a tarde pela Segunda Avenida até ao Central Park ou numa conversa casual com um estranho enquanto se espera para atravessar uma rua. 

Aqui as horas são dias e um dia ganha a forma de uma semana. Essa é a maravilha da vida no vento, no desconhecido e no autêntico fascinio pela estrada aberta: ganham-se dias de vida! 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Novo Mundo

Providence, Rhode Island

Chegamos há uma semana aos Estados Unidos, cansados, famintos e doentes, aterramos no aeroporto de Boston ao final da tarde. Que aventura que tem sido e quantas memórias gloriosas estão guardadas na minha memória.

Boston foi agora deixada para trás pelas milhas da estrada a bordo do nosso Jeep Cherokee, comprado num dos piores bairros das redondezas. Enferrujado, sujo e de motor quente contamos os primeiros quilómetros de estrada, nesta aventura. Primeiro sul, e depois norte para se seguir o velho Oeste americano onde vamos à procura de beleza, oportunidade e histórias para contar mais tarde às próximas gerações.

Em Boston, ficamos em casa do nosso amigo Nizar, no vigésimo segundo andar, numa penthouse com vista para toda a Back Bay, de Boston, para alguns dias depois nos mudarmos para um apartamento na Chinatown, do nosso grande amigo e professor no MIT, Joe. Foi impossivel escrever mais cedo, porque entre passar por Harvard, conhecer personagens maiores que a própria vida, conhecer mulheres elegantes de leggings e botas de cabedal e ter grandes conversas regadas a vinho e whisky velho de 15 anos, a mente esgotou-se e o tempo foi ocupado com a necessidade de planear o dia seguinte, e o seguinte e a incerteza de tudo.

Hoje saímos de Boston e estamos em Providence. Sentado num café com o Nizar, escrevo as primeiras palavras deste blog naquele que é o meu primeiro feriado nacional no Novo Mundo - Columbus Day, o dia em que Cristovão Colombo descobriu a América. 

Amanhã voltou a pegar a estrada pela manhã e esperamos chegar a Nova York, Mannathan. Ou então Brooklyn, ou Fourt Lee, ou qualquer sitio onde arranjarmos um sítio para ficar, - uma tarefa que se tem adivinhado praticamente impossivel até ao momento presente. Também amanhã, o nosso número aumenta e o terceiro elemento chega ao final da tarde ao aeroporto JFK diretamente da Noruega. 

Escrevo isto com a esperança de conseguir actualizar o blog com mais frequência e deixar-vos saber aquilo que se tem passado nesta louca aventura.

Amor,
João