segunda-feira, 24 de março de 2014
Simplicidade
Depois de um dia inteiro passado no deserto do Vale Morto, no Nevada, estávamos a descarregar as malas do carro. Dias de calor brutal desapareceram no ar rarefeito das montanhas californianas. Estávamos no coração do Parque Nacional de Yosemite, também conhecido como o parque das sequóias, numa estância de esqui deserta em que a única rua brilhava ao ritmo das cintilantes luzes de Natal.
Não sei quantos graus estavam, mas de certeza que estava abaixo de zero. O gelo cobria a estrada e formava-se nos ramos dos altos e frondosos pinheiros. Éramos quatro, mas só dois é que tinham dado entrada no hotel. Não era a primeira vez que isso acontecia: Fort Lauderdale, Nova Orleães, Las Vegas. Os únicos quatro sítios em que pagamos por alojamento. Ali, se não estivessemos no coração do Inverno era o local ideal para passar a noite dentro do carro, com a mala aberta e uma fogueira, com os grandes desfiladeiros à nossa frente iluminados pelo luar e pelos nossos sorrisos cansados. Mas a aventura era demasiada e o corpo também pedia descanço.
Foi nesse hotel de 3 estrelas, em que entramos sem ninguém nos ver que aconteceu um dos melhores momentos de toda a viagem....
É estavam menos de zero graus, mas também havia um jacuzzi de água quente que deitava fumo pelo ar como um geyser ancestral, que continha em si todos os sonhos dos viajantes que por ali passavam em alturas fora do pico turistico.
Despi as calças de ganga, tirei a camisola e mergulhei naquele poço de água quente. Nevava. No meio do vapor via os flocos de neve a descer na minha direcção. Era perfeito. Era toda a simplicidade que pudia existir. Foi um momento que não podia ser pago com todo o dinheiro do mundo, uma simplicidade encontrada naqueles que vêm a beleza nos mais pequenos momentos e que esses significam tudo, são tudo.
Esses são os momentos sagrados de qualquer viagem, momentos que por mais que sejam explicados nunca serão entendidos na sua totalidade por quem não os viveu.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Viajar: O Perigo ao Virar da Esquina?
É perigoso viajar?
Dando uma resposta geral: Não!
Viajar não é mais perigoso do que saires à rua na tua cidade. Viajar, tal como viver seja em que parte do mundo for acarreta os seus riscos. Contudo, há uma ideia disseminada na sociedade que viajar é perigoso e tirando os países da Europa Ocidental tudo o resto deve de ser evitado e mesmo assim, não se deve de falar com todas as pessoas que encontramos nas nossas viagens. Ah e claro, todos os outros locais são mais perigosos do que a tua cidade natal ou o teu país.
Eu discordo disso.
Viajar para 1% dos países do mundo pode ser perigoso, mas mesmo assim tudo se resume a uma questão de estar no local errado à hora errada. Nada mais.
A Roménia não é um país mais perigoso que Portugal. Buenos Aires não é menos seguro que Paris e Londres não é mais tranquilo do que Kuala Lumpur.
Não há nada que seja perigoso se o senso comum prevalecer. Cidades perigosas são todas. Cidades não perigosas são todas. Da mesma forma que existem zonas da tua cidade que não visitas, também irão haver zonas de outras cidades que não faz qualquer sentido lá entrar.
Vejamos uma cidade que pode ser considerada insegura: Bucareste. Nunca me aconteceu nada. Outra como Nova Orleães, nada. Los Angeles? Nada. Barcelona, a suposta capital mundial dos carteiristas? Não, nada...
Em todas as cidades em que já estive lembro-me de caminhar pelas ruas às 2, 3 ou 4 da manhã, sozinho, com as mãos nos bolsos e apenas com a minha própria companhia. E sim, nada me aconteceu. E se acontecesse? Bem, eu não consideraria a cidade mais perigosa por causa disso, porque de novo... é uma questão de estar no local errado à hora errada. Podia acontecer ali, como em qualquer outra cidade.
Agora se há algo que podem fazer para prevenir as probabilidades de serem roubados? Claro, há sempre.
Não andarem com uma máquina profissional a bater-vos no peito, um chápeu com a bandeira do país que estão a visitar e uma t-shirt "I Love..." vai um longo caminho para passarem despercebido. Outra técnica que uso é nunca mostrar que estou perdido, mesmo sabendo que não faço a mais pequena ideia de para onde vou. Se tu não mostrares e deres sinais óbvios então ninguém vai adivinhar. Ah e sim, se estiverem perdidos, às 3 da manhã com diversos tipos a fumar encostados às paredes da rua, nunca, mas nunca, mas nunca tirem o vosso mapa da mochila. Será que algum local iria tirar o mapa da mochila para saber onde mora?
Essa é a principal razão porque nunca tive grandes problemas, se te mostrares confiante, sem medo e que moras ali desde que nasceste como é que alguém pode adivinhar que és um viajante/turista?
Agora isto não implica se estiveres no centro da cidade, à luz do dia e com centenas de pessoas á tua volta não ires falar com ninguém. Sim, vai e fala e pergunta e pede sugestões. Não há nada de mal nisso.
E em jeito de remate, as maiores memórias que tenho das viagens que fiz são das pessoas que conheci ao longo do caminho e que se tornaram boas amigas.
Agora vai, viaja e descobre que o mundo não é um local perigoso e que a bondade humana está em todo o lado.
terça-feira, 4 de março de 2014
"Qual Foi a Pessoa Mais Famosa Que Conheceste?"
Esta segunda-feira foi a noite dos Óscares. O que tem isto haver com a RoadTrip ou até mesmo com viagens? Muito pouco... o mais parecido dessa noite, foram as horas que passei em Hollywood durante a minha estadia em Los Angeles.
Como já devem ter reparado, Los Angeles é uma cidade pela qual não morro de amores. Na verdade não é uma cidade, mas sim uma série de cidades ligadas umas à outras com muito pouco em comum entre si. Santa Mónica não tem nada relacionado com a Downtown, e até mesmo o centro de Hollywood não tem uma ligação clara com a zona de North Hollywood, - que foi onde passei a última semana e meia da viagem.
E se a visão que tens de Hollywood é de glamour, charme e o top do lifestyle que algum mortal pode alcançar, então... esquece isso. Hollywood é uma cidade em que os sem-abrigos estão por todo o lado, o trânsito não é menos caótico, há lojas de conveniência de asiáticos em todas as esquinas, o chão é sujo e há muito pouco de glamour na cidade.
Como o meu amigo Ryan diz: "Espelhos e fumos, espelhos e fumo é o que esta cidade é." Não foge da verdade.
Normalmente quando conto que estive em Los Angeles uma pergunta que me fazem frequentemente é "Viste alguém famoso?"
E a minha resposta, sem variar é: "Sim, vi."
À qual acabam por completar com: "Quem? Quem?"
O problema vem com a minha resposta a esta pergunta. A verdade é que a pessoa mais famosa que conheci, não é conhecida pelas pessoas em geral. Os olhos crescem em expectativa, as bocas abrem em antecipação para depois se formar um franzir dos olhos, os lábios torcerem-se e me perguntarem "Quem é esse?"
Depois de ouvir isto, normalmente pego no objecto mais pesado que estiver à distância dos meus braços e atiro-o à cara da pessoa que me perguntou isso.
Pois a pessoa mais conhecida que encontrei durante esta viagem não vivia em Hollywood, nem nunca participou num filme rodado pelos grandes estúdios. Contudo, se eu entrar no departamento de Ciência Política ou de Línguistica de qualquer universidade do mundo e contar que o conheci, ou sou visto como uma semi-divindade, ou como um idiota que não sabe como é que conheceu, nem mais, nem menos o.... Noam Chomsky.
O nome não te diz nada? Não? Bem o Chomsky de certa maneira que é um dos meus heroís e alguém que falou comigo durante dezenas de horas durante a minha adolescência quando lia os seus livros. Queres ver quantos livros é que tenho dele? Estes:
O Noam Chomsky para além de ser professor de uma das melhores universidade do mundo, o M.I.T. em Boston é também a figura intelectual mais importante no mundo, reconhecido diversas vezes por revistas e publicações que analisam quem é o supra-sumo do intelectual.
Eu sei. Neste momento deves de estar a fazer uma cara de grande desilusão. "Então este tipo foi à América e o tipo mais conhecido que encontrou foi um professor universitário de que nunca ouvi falar?"
Pois é. Mas a verdade é que como disse, o Chomsky é mesmo das pessoas mais importantes e conhecidas do mundo nas áreas da política, linguistíca, propaganda, filosofia e gramática.
Mas já que leste até aqui vou deixar um pequeno segredo, nestas últimas linhas do texto. Sim, eu vi alguém famoso. Aliás, vi alguém que participou em filmes de Hollywood e claro foi aí que eu o vi. Como é que se chama? Pois, tratava-se do 007, Daniel Craig que parou o carro dele ao lado do nosso Jeep Canyonero em sentido contrário. Ele não me viu, não disse nada e só reparei nele porque estava mesmo ao meu lado. Portanto, essa é a figura pública mais conhecida que vi, mas com quem não falei.
Ou será que... Não, afinal não é nem o Chomsky, nem o Daniel Craig. Numa noite de sábado, num dos bares em Venice Beach, enquanto dizia mal da minha vida por ter saído estando tão cansado, vi e falei com... Aaah, se calhar é melhor não dizer. É, é melhor, afinal num bar a abarrotar de pessoas eu fui o único que falei com ele e reparei que ele estava ali. Acho que isso ficará para um próximo texto e aqui fica uma fotografia minha e do Jordan, com o professor Noam Chomsky, no M.I.T.
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