Hoje é o dia de Outono que sempre se sonha ter: as árvores perdem as folhas, as pessoas caminham pelas ruas, o sol brilha no céu e está calor. O contraste com o frio de Montreal, escrito no último texto, é mais que bem vindo e espero que a partir de agora não tenha que voltar a vestir três peças de roupa para não ter tremores de frio pelo corpo.
Aqui não se dorme, não se descança e não há tempo para lamúrias. Estamos os quatro a viver como baratas: comemos a comida mais barata, passamos as noites no chão e temos que ter a energia para fazer aquilo que tem que ser feito: escrever, contactos para os eventos, coçar a cabeça a tentar perceber como é que vamos arranjar um sítio para ficar na próxima cidade e agora arranjar o Jeep, que se avariou mal chegamos a Toronto. E no meio disto tudo, há que sair à noite, fazer quem nos hospeda fique contente connosco, comprar comida, cozinhar e cumprir metas e objectivos pessoais. Aqui vivesse acima do limite de velocidade e há dias em que há acidentes a alta velocidade, enquanto noutros dias tudo fluiu num ritmo natural.
Sinto-me cada vez mais como um membro de uma banda rock em digressão. Não há energia ou tempo para andar a visitar a cidade e as relações com as pessoas há nossa volta são tudo menos arco-iris e flores. É, nós somos uma banda rock na estrada e há dias em que queremos tudo menos actuar, mas o que se pode fazer?
A verdade é que a reacção das pessoas quando digo aquilo que faço é como abrir uma mala cheia de notas de 100 e deixar espreitar. Há quem queira tirar fotografias, querem saber a opinião sobre este tema em particular e o como é andar a viajar e não ter mais do que uma mala de viagem e algumas raparigas fazem questão de apresentar as amigas. Não é esta a essência de ser uma estrela de rock?!
E contudo, quando se vive este estilo de vida, não se adormece a pensar na casa que sempre conhecemos como o nosso lar, ou com os amigos, raparigas ou o cão que sente mais a nossa falta, que nós a dele... Quando se está na estrada e nos deitamos somos engolidos para o grande vazio da escuridão, não há nada lá.
Mas falemos de Toronto...
Toronto é ao mesmo tempo Portugal e a cidade mais multi-cultural em que já estive, - sim mais que Nova York! Porque é Portugal? A razão é simples: ontem caminhei durante uma hora e meia para assistir ao jogo do Sporting contra o Porto, aqui há uma só realidade, o Sporting é rei em Toronto. Éramos mais de 300 adeptos e apesar de estarmos a perder, as conversas, a cerveja portuguesa, o Sumol de laranja e a tentativa de adivinhar o sotaque da pessoa com quem falava era mais importante que o resultado do jogo em si. E aqui, deste lado, a tantos quilómetros de distância não me interessava o resultado, porque quando marcamos o golo do empate foi como se tivessem aberto a jaula ao leão que vive em mim: de braços no ar gritei até me doer a garganta, naquele momento eu era uma bancada inteira, um éxercito de cem mil homens preparados para arrasar cidades. Há poucas coisas que me fazem sentir assim e aqueles segundos de descontrolo total valeram por tudo...
E porque é Toronto uma cidade multi-cultural? Para começar 55% da população não é etnicamente canadiana: chineses, coreanos, paquistaneses, indianos, libaneses, italianos, toda a América do Sul e as Caraíbas e russos fazem parte desta cidade da mesma forma que eu faço nestes dias. É um choque para mim e um estimulo total para o cérebro quando caminho pelas ruas. Como pode ser possivel tomar o pequeno almoço num café de Tawain, almoçar uma refeição das Caraíbas, na rua ouvir "O Meu Amor de Verão!" e juntar-me com os amigos que aqui estão ao final da tarde num bar etíope?
Love,
João

keep going son!!
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