Apesar de viajar ser uma das coisas que mais gosto de fazer, sou o primeiro a admitir que nem tudo corre conforme o planeado. E se na altura não vais achar piada nenhuma ao que te está a acontecer, quando recordares do que aconteceu até vais soltar um sorriso e lembrar-te com um misto de entusiasmo e saudades do tempo em que tudo era mais imprevisível. (Com a excepção de quando te tentam roubar descaradamente...)
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| A acção de hoje decorre em Podgorica... |
Nesta última viagem, sem escapar há regra ocorreram muitos incidentes, uns mais divertidos que outros, outros mais graves e outros tão banais como correr como um louco por uma estação búlgara, em que ninguém fala inglês para apanhar um comboio às 7.15 da manhã.
Mas hoje lembrei-me de um incidente deveras caricato e bastante doloroso. A razão de me ter recordado, do que estou prestes a desvendar é porque tenho passado uma série de dias com enxaquecas que não me deixam concentrar, e assim escrever e editar o meu livro.
Contudo tenham atenção, há imagens bastante gráficas que poderão não querer ver...
Tinha acabado de chegar ao hostel em Podgorica, em Montenegro - que na verdade se lê Podgoritsa. A viagem de barco, como já relatei anteriormente, demorou mais de 12 horas e de Bar até à capital montenegrina tive que apanhar um comboio que acrescentou meia hora à viagem. Estava desidratado, não dormia há mais de 24 horas e a última refeição tinha sido às 7 da tarde do dia anterior.
Para piorar a situação, lembrei-me que não sabia as indicações para o hostel. Um hábito que adquiri pela confiança própria de viajar e de que tudo se resolve. Caminhei pelas ruas de Podgorica, quilómetro atrás de quilómetro até finalmente encontrar o hostel. Sendo a única parte positiva o facto de ter visitado o centro da cidade, sem saber que o tinha feito.
Quando chego, finalmente, ao meu quarto decido que preciso de um banho, visto que me sentia absolutamente nojento. Saio da banheira, visto-me e sei que antes de comer preciso urgentemente de dormir. Encosto a mala à parede e tento encontrar o carregador do telemóvel algures na mala, para carregar o meu aparelho. Fecho a janela imediatamente à minha frente e depois de arrumar a mala, levanto-me e...
Dou dois passos para trás, sinto a cabeça a abrir-se ao meio e deito as mãos ao cabelo. Olho, sem conseguir pensar e vejo o meu braço coberto de sangue.
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| O meu fabuloso e danificado crânio. (e provavelmente a única fotografia que tenho numa casa de banho) |
O inicio ideal para uma viagem...
O tipo do hostel diz que não devo de precisar de pontos. Vou com um tipo australiano a uma farmácia e a resposta da menina de bata branca é tão simples como: "Não consigo ver nada, tens a cabeça coberta de sangue." Muito obrigado! Segundo ela, tinha duas opções: 1) levar pontos ou 2) por água oxigenada.
Pensei por breves segundos.... Se levasse pontos tinha que ir até a um hospital, em que desconhecia as condições higiénicas. Depois ia passar por mais uma quantidade de dor que não me parecia desejável. Dali a uma semana estaria na Albânia, depois na Macedónia... E provavelmente teria que rapar o cabelo, pois teria que andar com um penso monstruoso no topo da cabeça. E o pensamento simples de ter que... levar pontos no topo da cabeça... Já tentaste pegar em pele no topo da tua cabeça? Simplesmente não consegues e isso assustou-me.
Se não levasse pontos e apenas pusesse água oxigenada, só tinha que o fazer de hora a hora até parar de sangrar, visitar a cidade e esperar pelo melhor.
Não pareceu uma decisão difícil. Não a mais sensata, mas sem dúvida, a mais fácil.
O curioso é que na altura me pareceu a pior coisa que me podia acontecer, e por momentos tudo aquilo que quis era estar de volta a Portugal, em que tudo era familiar e sabia como as coisas funcionavam. Admito, disse mal da minha vida.
Mas agora olhando para trás, até é uma história engraçada e não me parece que as minhas capacidades tenham ficado reduzidas, certo?
Se um dia tiver que rapar a cabeça e uma rapariga me perguntar o porquê daquela cicatriz, que vim mais tarde a saber que devia ter levado sete pontos, posso sempre dizer que foi a salvar uma família indefesa num conflito armado em Montenegro, contra um exército deslocado da guerra dos Balcãs, enquanto fugia de soldados altamente treinados pelos destroços bombardeados de uma qualquer cidade. E sim, lutei bravamente e nunca tive medo!
Assim, tenham boas viagens durante este Verão e não se deixem assustar por adversidades, que no momento parecem gigantes, mas que na grande perspectiva das coisas são na verdade bastante insignificante e algo divertidas.


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