segunda-feira, 14 de julho de 2014

Quando Viajar Corre Mal...

...e Tenho Que Tirar Uma Fotografia Na Casa De Banho. Já vais perceber...

Apesar de viajar ser uma das coisas que mais gosto de fazer, sou o primeiro a admitir que nem tudo corre conforme o planeado. E se na altura não vais achar piada nenhuma ao que te está a acontecer, quando recordares do que aconteceu até vais soltar um sorriso e lembrar-te com um misto de entusiasmo e saudades do tempo em que tudo era mais imprevisível. (Com a excepção de quando te tentam roubar descaradamente...)

A acção de hoje decorre em Podgorica... 


Nesta última viagem, sem escapar há regra ocorreram muitos incidentes, uns mais divertidos que outros, outros mais graves e outros tão banais como correr como um louco por uma estação búlgara, em que ninguém fala inglês para apanhar um comboio às 7.15 da manhã.

Mas hoje lembrei-me de um incidente deveras caricato e bastante doloroso. A razão de me ter recordado, do que estou prestes a desvendar é porque tenho passado uma série de dias com enxaquecas que não me deixam concentrar, e assim escrever e editar o meu livro.

Contudo tenham atenção, há imagens bastante gráficas que poderão não querer ver...

Tinha acabado de chegar ao hostel em Podgorica, em Montenegro - que na verdade se lê Podgoritsa. A viagem de barco, como já relatei anteriormente, demorou mais de 12 horas e de Bar até à capital montenegrina tive que apanhar um comboio que acrescentou meia hora à viagem. Estava desidratado, não dormia há mais de 24 horas e a última refeição tinha sido às 7 da tarde do dia anterior.

Para piorar a situação, lembrei-me que não sabia as indicações para o hostel. Um hábito que adquiri pela confiança própria de viajar e de que tudo se resolve. Caminhei pelas ruas de Podgorica, quilómetro atrás de quilómetro até finalmente encontrar o hostel. Sendo a única parte positiva o facto de ter visitado o centro da cidade, sem saber que o tinha feito.

Quando chego, finalmente, ao meu quarto decido que preciso de um banho, visto que me sentia absolutamente nojento. Saio da banheira, visto-me e sei que antes de comer preciso urgentemente de dormir. Encosto a mala à parede e tento encontrar o carregador do telemóvel algures na mala, para carregar o meu aparelho. Fecho a janela imediatamente à minha frente e depois de arrumar a mala, levanto-me e...

Dou dois passos para trás, sinto a cabeça a abrir-se ao meio e deito as mãos ao cabelo. Olho, sem conseguir pensar e vejo o meu braço coberto de sangue.

O meu fabuloso e danificado crânio.
(e provavelmente a única fotografia que tenho numa casa de banho)


O inicio ideal para uma viagem...

O tipo do hostel diz que não devo de precisar de pontos. Vou com um tipo australiano a uma farmácia e a resposta da menina de bata branca é tão simples como: "Não consigo ver nada, tens a cabeça coberta de sangue." Muito obrigado! Segundo ela, tinha duas opções: 1) levar pontos ou 2) por água oxigenada.

Pensei por breves segundos.... Se levasse pontos tinha que ir até a um hospital, em que desconhecia as condições higiénicas. Depois ia passar por mais uma quantidade de dor que não me parecia desejável. Dali a uma semana estaria na Albânia, depois na Macedónia... E provavelmente teria que rapar o cabelo, pois teria que andar com um penso monstruoso no topo da cabeça. E o pensamento simples de ter que... levar pontos no topo da cabeça... Já tentaste pegar em pele no topo da tua cabeça? Simplesmente não consegues e isso assustou-me.

Se não levasse pontos e apenas pusesse água oxigenada, só tinha que o fazer de hora a hora até parar de sangrar, visitar a cidade e esperar pelo melhor.

Não pareceu uma decisão difícil. Não a mais sensata, mas sem dúvida, a mais fácil.

O curioso é que na altura me pareceu a pior coisa que me podia acontecer, e por momentos tudo aquilo que quis era estar de volta a Portugal, em que tudo era familiar e sabia como as coisas funcionavam. Admito, disse mal da minha vida.

Mas agora olhando para trás, até é uma história engraçada e não me parece que as minhas capacidades tenham ficado reduzidas, certo?

Se um dia tiver que rapar a cabeça e uma rapariga me perguntar o porquê daquela cicatriz, que vim mais tarde a saber que devia ter levado sete pontos, posso sempre dizer que foi a salvar uma família indefesa num conflito armado em Montenegro, contra um exército deslocado da guerra dos Balcãs, enquanto fugia de soldados altamente treinados pelos destroços bombardeados de uma qualquer cidade. E sim, lutei bravamente e nunca tive medo!

Assim, tenham boas viagens durante este Verão e não se deixem assustar por adversidades, que no momento parecem gigantes, mas que na grande perspectiva das coisas são na verdade bastante insignificante e algo divertidas.

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