segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Lêem-se livros pelas capas? E viagens?

Quantas vezes já ouviste esta frase: "Não julgues um livro pela sua capa"?

A verdade é que todos nós julgamos e por muito que tentemos não julgar os outros há sempre uma ponta de julgamento na parte de trás da nossa mente, um diálogo infinito de questões egoístas que nos fazem perguntar: Será que posso confiar nesta pessoa? Será que este sítio é seguro à noite? Este tipo está a dar-me o troco certo? Porque é que este tipo está a falar comigo? Quais são as intenções dele? Porque é que está a ser tão simpático? Este quarto não tem bom aspecto... Estas pessoas não têm bom aspecto.

Eu não sou diferente de ti se alguma destas perguntas te passam pela cabeça quando conheces alguém novo, ou alguém começa a falar contigo apenas porque sim. A parte engraçada disto é que por vezes EU TAMBÉM SOU JULGADO PELA MINHA CAPA. Ao longo das minhas viagens esta é uma constante e por vezes sinto que estou completamente fora do meu elemento.

Apesar de eu não falar albanês e o Markelino não saber inglês fomos dois animados companheiros de viagem durante 4 horas, entre Tirana e Berat. E sim esta é uma carrinha ilegal de transporte de passageiros em que cada pessoa paga literalmente o que quer à máfia local pela viagem.

Como sabes são poucas as coisas que levo comigo quando viajo e assim as alternativas que tenho são algo limitadas. E isto pode levar a situações que vão desde o cómico até ao liminarmente perigoso.

Imagina-te a caminhar em Nova Orleães, toda a gente veste casacos velhos e alguns rasgados, os seus sapatos são em segunda e terceira mão e em algumas pessoas consegue-se ver as meias a espreitarem por baixo, os gorros esfarrapados e as caras cansadas olham para ti atentamente conforme passas à frente deles que esperam por um autocarro e tu lá vais de casaco de cabedal com fecho assimétrico, calças de ganga da Levi's, uma bolsa Camel com um tablet lá dentro, botas de cabedal com um pormenor no calcanhar e com a barba cortada da mesma forma que tenho na fotografia do lado direito. (Aliás agora que me lembro essa fotografia foi tirada em Nova Orleães).

É uma situação algo caricata, mas não posso mentir e dizer que me senti totalmente seguro.

E se chegar exactamente da mesma forma à cidade de Elbasan, no interior da Albânia, com o acréscimo de levar um écharpe à volta do pescoço, uma mala de rodinhas e um boné?

A minha (triste) figura totalmente discreta antes de chegar a Elbasan.

Bem, nessa situação senti que era uma estrela famosa de algum clique exclusivo que caiu desamparada em Elbasan e a forma como as pessoas me viam era simplesmente no formato de notas de euros. Este caso levou-me à  situação potencialmente mais perigosa que enfrentei na minha vida.

Mas também acontece o contrário: Cracóvia, noite de sexta feira, estou de camisola de gola alta, sem cortar o cabelo à três meses, botas de montanha e calças demasiado sujas na entrada da melhor discoteca da cidade. Resultado, fiquei à porta.

Mas chega de falar de mim.

A verdade é que todos nós julgamos as outras pessoas com maior ou menor maldade, ninguém entre os viajantes tem um estatuto moral superior. Os backpackers troçam dos turistas, os turistas olham com desprezo para a falta de condições dos backpackers, os mais hippies olham com um misto de gozo e desdém para quem pára em hostels com malas de rodinhas e casacos de marca, os mais novos olham para os mais velhos em incompreensão e assim por aí adiante.

Estrada entre Berat e Elbasan, pouco mais de 200 km que se fizeram em 5 horas. Desta vez num autocarro normal.

Mas sabes qual é a parte positiva de tudo isto? Que no final, apesar das nossas diferenças somos capazes de nos sentar, por os julgamentos para o lado e conseguir ler os livros que estão à nossa frente com a mesma clareza que teríamos se não tivéssemos a voz do julgamento geral.

Apesar de julgarmos o livro pela capa acabamos sempre por o ler.

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