sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Excerto de uma conversa em Austin

«“Mas será que estamos a desperdiçar as nossas vidas? Será que desperdiças-te a tua vida Jim? O que somos nós senão aquilo que perdemos e os nosso vícios. Não somos todos viciados em algo? Durante esta viagem, nós os quatro temos tidos muitas conversas sobre sermos autênticos e sobre descobrirmo-nos a nós mesmos. Mas será que algum dia vamos saber essa resposta? Será que o propósito é saber a resposta?

Nós temos todas estas discussões filosóficas e complexas e no fundo não nos apercebemos que nunca nos iremos conseguir julgar e ver pelos olhos dos outros, que nunca seremos capazes de sentir a nossa própria pele como os outros sentem e que nunca vamos sentir a nosso cheiro, ouvir a nossa voz e o sabor dos nossos lábios como os outros conseguem. Esse para mim é o grande mistério e por não conseguirmos sentir isso, gostamos de nos enganar, de dizer a nós mesmos que sabemos e criamos histórias e personagens como se fôssemos o narrador de uma grande novela que é a nossa vida.

E aquilo que não vemos é que não somos mais do que os nossos vícios secretos, que as conversas que temos sozinhos e que mais ninguém ouve, daquilo que pensamos a adormecer e da frustração que sentimos quando o mundo não se parece com a nossa ideia daquilo que queremos viver. É um ciclo sem fim, é a serpente que morde a sua própria cauda e renasce constantemente. E isso somos nós e os nosso vícios, os nossos pequenos segredos que são a nossa droga e nos mantêm vivos. 



(...)

“Não, enganas-te. Não foi isso que eu disse. Disse que a tristeza da vida vem da incapacidade de sabermos quem somos, da incapacidade de aceitar aquilo que é natural e parte do todo. Nós ficamos tristes com certas situações, porque não aceitamos que a natureza possa ser violenta, que há coisas na vida que nos vão magoar e que não há nada que possamos fazer em relação a isso. Se tu tentares forçar, se tu tentares criar algo a partir do nada para mudar o que sentes, então só vais estar a piorar. Tu podes escolher estar animado, mas no fundo, na essência de quem és e que não consegues aceitar, percebes sempre que há uma parte de ti está partida. É como andares de carro e um camião te bater de lado, tu podes arranjar o carro, podes convencer-te que é um carro novo, lindo e perfeito, mas sabes no fundo, nessa mentira a ti próprio que aquela porta nunca irá ser a mesma, que irá ter sempre aquele jeito que é preciso fazer ao fechar. E nós somos iguais. Nós somos magoados com a vida e por mais que tentamos mentir a nós mesmos, quando alguém falar de algum assunto, quando alguém tocar na ferida sem saber que o estar a fazer vais sempre sentir a dor, a ferida a arder e só tu é que sabes. É o teu segredo.

Por isso é que eu não sei daquilo que gosto, sei mais aquilo que tenho que fazer para não sentir essa dor. Eu não sei se gosto de escrever, sei que se não o fizer não consigo viver comigo mesmo. Eu não sei se gosto de mulheres ou não, só sei que se não falar com elas fico a sentir-me mal, eu não sei se gosto de outras pessoas, só sei que se não falar com outras pessoas fico louco. É mais uma questão de fugir da dor, do que encontrar prazer. Quando um de nós é viciado em heroína, a única diferença é que cada um tem uma droga diferente e que não consegue viver sem ela. Consumimos apesar de saber que nos magoa, mas continuamos para não sentir a dor da ressaca, para conseguirmos acreditar que é possível alcançar aquilo que a imaginação nos propela a atingir. 

Quando consegues aceitar que és partido em mais do que uma maneira diferente, de que não és perfeito e de que irás sentir sempre dor, frustração e não vives sem o teu vício, então estarás um passo mais próximo de saber quem não és e como consequência de saberes quem és. Porque quem sabe que não vê, melhor consegue ver e quem julga ver, mais cego é. E é nessa dor, nessa cegueira parcial que nos ligamos uns aos outros."

Silêncio. Bebi um gole da cerveja e voltei a encostar-me às costas da cadeira.»

Excerto de uma conversa, em Austin, Texas. Primeiro rascunho do livro que estou a escrever sobre a viagem à América do Norte.

Espero que gostem

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