quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Conquista a Motivação de Viajar Para Sempre

Há momentos em que surge a oportunidade de viajar, mas a ideia parece-te demasiado extravagante, ou se calhar o destino assusta-te ou sentes que estás com falta de motivação. Tudo isso é normal, o medo e a ansiedade de começar uma nova viagem podem muitas vezes ser maiores entraves do que a viagem em si.

Todos nós passamos por isso, todos nós temos momentos em que se calhar preferíamos passar mais umas semanas, ou uns meses colados à frente do ecrã de televisão e sentados confortavelmente no sofá de sempre. Se há algo que viajar causa é uma quebra total da rotina, é a existência de um quase antes e depois da viagem porque por vezes és retirado tão brutalmente da tua zona de conforto que nada voltarás a ser o mesmo.

Por isso, para te ajudar na tua motivação de começares a viajar vou-te contar uma história...

Em Maio deste ano estive durante uma semana na região Sul de Itália. Ao me ver sem grandes alternativas e sem o bilhete de regresso comprado, olhei para o mapa e comecei a pensar para onde poderia ir. Sem muito planeamento, ou pensamento, passado três dias estava numa viagem de 5 horas de Salerno até Taranto, onde corri até à estação de comboios para apanhar a ligação até à cidade portuária de Bari, algumas horas mais a norte.

O Centro Antigo da cidade de Bari

Bari é uma cidade invulgarmente estranha: os edifícios de mármores contrastam com as crianças a pedir dinheiro na rua, o italiano mistura-se com o albanês e as esplanadas chocam de frente com um sentimento permanente em que não estava em completa segurança.

Cheguei ao porto de Bari às 4 da tarde e as portas só abriam dali a 5 horas. Portanto um longo tempo de espera... Comi uma pizza num snack-bar frequentado pelos locais e por grupos de máfia albanesa, eu era um estranho em terras estranhas. Paguei a conta e fui para a sala de espera, muitos homens de meia idade dos Balcãs, alguns trabalhadores temporários, outros camionistas e a certeza quase absoluta que ninguém falava inglês. Ao meu lado estava um senhor que aparentava ter uma certa idade, a barba crescia-lhe à volta da boca, usava um boné verde tropa e enrolava tabaco numa fina mortalha, enquanto as mãos lhes tremiam nervosamente.

"Fala inglês?" - perguntei.
Olhou para mim, deu um bafo no cigarro e apenas respondeu:
"Sim."

Falamos durante alguns minutos até ser anunciado que as portas para o navio estavam abertas. Avancei rapidamente pela fila dos cidadãos da União Europeia enquanto ele ficou na longa fila dos extra-comunitários.

Passeei pelo navio, subindo e descendo de deck, espreitando pelas várias varandas, observando o pôr-do-sol e quando desço umas escadas vejo o mesmo senhor a arrastar a sua mochila escadas acima. Perguntei se queria ajuda e depois de uma educada negação, lá aceitou e levei-lhe a mochila para o espaço em que nós os dois e mais 40 camponeses kosovares iam passar a noite, em prantos de guerra e  risos histéricos, que não me deixaram dormir.

Começava a travessia do Adriático

Passadas algumas horas (a que te vou poupar) encontrava-me a beber uma cerveja com o Donald no convés exterior e falamos de viagens, da sua vida na Nova Zelândia e do que o levava a viajar. O Donald não era um viajante comum, com 81 anos (!!!) viajava todos os anos durante o inverno Neo-Zelandês porque fazia simplesmente demasiado frio, um frio de que ele não gostava. Já tinha corrido mais de 40 países entre os quais uma viagem de norte a sul à China e um tour com um outro amigo ao Usbequistão. Vivia sozinho na cidade de Queenstown desde que a mulher tinha falecido e ocupava o tempo livre a esculpir figuras em madeira. Antigo arquitecto e fumador só em tempos de viagem.

Toda a inspiração que precisava para a viagem que se aproximava estava ao meu lado, com voz tremida e cigarros mal enrolados. Mas há noites que trazem mais inspiração do que se está à espera.

Do outro lado da mesa um tipo de cabelo comprido loiro escrevinhava rapidamente num caderno preto de bolso. A história dele? O Derek era um antigo estudante de desenho da cidade de Hannover, na Alemanha. Havia desistido do curso e trabalhou durante 7 meses numa fábrica de componentes automóveis e depois... Depois despediu-se, pegou na bicicleta e há mais de um ano que cruzava a Europa e o Norte de Africa. Desde a Irlanda, Inglaterra, Portugal, Marrocos, Itália, Franca, Espanha ele tinha mais pedaladas do que qualquer outra pessoa que conhecesse. Onde é que ele dormia? Numa tenda que levava e que montava num qualquer descampado. Em Marrocos disseram-lhe que não era seguro dormir no sopé de uma montanha, em França foi atacado várias vezes por javalis enraivecidos e preparava-se para se deitar no banco, dormir sob as estrelas e pedalar pelos Balcãs.



O que mais me espantou? O seu positivismo, perante qualquer pergunta respondia: "É, é OK."

O Derek ficou para trás na fila de entrada aduaneira, enquanto eu e o Donald seguimos até um táxi que nos propunha levar a Belgrado por 60€, quando tudo o que queríamos era ir até à estação de comboios. E foi aí que vi o Donald pela última vez... Falava com as senhoras da estação, com a prestável tradução de um taxista que a curiosidade sobre dois viajantes tão distintos o retirou do aborrecimento diário e soube que o meu comboio estava segundos a partir. O taxista caminhou até à plataforma, gritou algumas palavras em servo-montenegrino e  disse-me para correr, para correr muito. Começo a correr... Paro, deixo a mala apeada, volto para trás, abraço o Donald e apenas digo que foi um prazer conhece-lo, que se mantenha seguro nas suas viagens, apertei a mão ao taxista e saí do hall da estação disparado, atravessei linha atrás de linha, 6 ou 7, não me recordo, e saltei para dentro da carruagem.

O Donald, tal como o Derek, o taxista, a estação de comboios e a cidade de Bar ficaram para trás enquanto o comboio seguiu marcha até Podgorica.

Se te falta motivação para viajar não te percas no meu conto deste dia, pensa nas viagens de um homem de 81 anos, que corria o outro lado do mundo porque... na Nova Zelândia faz demasiado frio. Ou no tipo de vinte e muitos anos, que pedalou à volta de um continente porque a vida em Hannover era demasiado aborrecida.

O Donald e um tipo demasiado feliz por estar há mais de 24 horas sem dormir... Descobre o que lhe acontece a seguir!

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