segunda-feira, 28 de julho de 2014

O Problema de Viajar (E Voltar)

Talvez viajar não seja algo para mim, talvez não seja algo para ti... Porque tem a potencialidade de arruinar a tua vida, tal como a conheces.

Quando se toma a decisão de viajar por mais de uma semana, - quer seja um mês, três ou até um ano e mais do que isso -, o grande factor que influência é a necessidade de fazer algo mais, de saber que há mais para além do imediato à nossa frente. Não se pode contrariar esse apelo e quem o sente com a mesma força que eu sinto: ou acabava confortavelmente adormecido na sua vida de aborrecimento ou deixa tudo para trás e atira-se à aventura.




O problema disto é que quando voltas: tudo está exatamente igual. Podem haver algumas obras na estrada por que conduzes, alguém pode ter começado a namorar, ou acabado... mas na grande generalidade, tudo permanece exactamente igual. Mesmo que estejas longe de casa durante um ano, nada irá estar mudado.

E tu... tu mudas-te. Tu és uma pessoa diferente, com uma visão diferente, com vontades que não tinhas quando saíste de casa, com uma mentalidade que quem ficou em casa não conhece. Quando chegas olhas para tudo à tua volta e nessa estranha familiaridade, percebes que aquilo que associavas como sendo a tua cidade, agora não te diz absolutamente nada. Um vazio total.

O teu quarto de infância parece uma memória viva do passado. As conversas com os amigos são vazias. As discussões em casa desnecessárias e os problemas políticos e económicos tão distantes que te perguntas o porquê de alguém querer saber disso mesmo.

Durante uns dias podes ser a nova mascote das pessoas conhecidas, com dezenas de perguntas gerais, mas passado alguns dias isso desaparece e ninguém pode aguentar mais contar-te o que eles fizeram durante o tempo que estiveste fora.

E... nada disso interessa.

Tudo aquilo em que consegues pensar é em pegar na mala, meter roupa lá dentro e voltar a partir para um qualquer outro lugar, em que não conheças ninguém e possas viver dias de aventura, um a seguir ao outro e deixar a estagnação, a que um dia associaste com a "tua" cidade.

Quando viajas não voltas a pensar como antes. Não voltas a ver o mundo da mesma maneira. Não voltas a ver uma noite entusiasmante como uma saída a uma discoteca em que toda a gente ficou alegre e uma rapariga te pediu o número.

Depois de teres saltado de um avião, te teres explorada as partes mais inóspitas de um continente, de teres presenciado beleza com os teus olhos (que não se consegue explicar), depois de teres estado nas melhores festas do mundo... Como é que tudo pode continuar igual?

Eternamente deslocado e a voz da estrada continua a chamar-te.


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